terça-feira, 1 de março de 2011

 

No Palco com … [ III ]


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** Alex – agora Mister Gay **


Este “No Palco com … “ é destinado a lembrar um cantor excêntrico na sua forma de apresentação visual que nos inícios dos anos sessenta apareceu a pisar alguns dos palcos de casas de espectáculos luandense, assim como programas de variedades no Restauração, Colonial, Kipaka e outros. Não me lembro de alguma vez o ter visto a actuar nos SMAE ou no Cine-África, mas é provável que tenha actuado.
Dois dos temas do seu reportório cheguei também a cantá-los nos tais concursos do Chá das Seis (Restauração) e da Parada da Alegria (Colonial). Eram de letra fácil, tinham algum ritmo e cantar Alex estava na moda. De um deles transcreverei a letra e quem se lembrar do tom musical facilmente a poderá cantarolar.

Assim, para todos vós, … ALEX, o fabuloso




Alex foi um popular cantor de musica ligeira e também romântica. Apresentava-se, conforme já referi, de forma excêntrica no vestuário, usando roupa fora dos padrões “convencionados”, “produzindo-se” através de maquilhagem e maneava-se ostensivamente se a canção tivesse ritmo para isso, contribuindo para que algumas “barreiras mentais” ainda existentes na época começassem a ser “derrubadas”.
Um dos maiores problemas com que Alex se deparou, tendo por isso e infelizmente tido bastantes dissabores, foi o de ter assumido descomplexadamente a sua homossexualidade. A partir dessa sua publica confissão muitos espectadores, e não só, permitiam-se ao insulto fácil e vernáculo como se à sua frente não estivesse um cantor, um entertainer, cujo propósito era o de apenas procurar entreter o publico que o ouvia e dessa forma ganhar o seu cache.



Algumas vezes foi agredido por gente estupidamente estúpida, nomeadamente militares, que não compreendiam, não aceitavam, ou apenas pretendiam humilhá-lo, sentindo-se assim mais homens que o homem que covardemente agrediam, ou talvez com um pouco de “inveja” do êxito de um homossexual. Mas Alex tudo isso foi superando e sobrevivendo até ter desaparecido da ribalta do musical luandense, talvez por ter rumado para a “metrópole”. Penso que a última vez que o terei visto actuar terá sido em 1967/8.

Pelo recorte abaixo da Plateia sobre “Noticias de Angola”, em 1973 regressou a Luanda mas o seu “tempo” já tinha passado, pelo menos em Luanda.

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Pessoalmente considero que terá sido um cantor de voz mediana, mas “disfarçava” esse factor com a forma atrevida e descomplexada com que se apresentava e se “entregava” nos palcos, contagiando as plateias.

Saudações e Inté

TWIST SALOIO

                                            Passam carros e carroças
                                            Na minha rua numa chiadeira,
                                            Umas de primeira,
                                            Outras de segunda
                                            E outras de terceira!
                                            .....

                                            [Refrão] - e repete:
                                            O Twist é bom,
                                            Assim é que é ...
                                            Perninha prá frente,
                                            Perninha pra trás,
                                            bate bem o pé ...
                                            .....

                                            As meninas d'agora,
                                            Dançam o twist de qualquer maneira,
                                            Umas de primeira,
                                            Outras de segunda
                                            E outras de terceira ...
                                            [Refrão] - e repete.
                                            .....



Comments:
Mano

Segundo se dizia, Alex chegou a referir que tendo ele 7 irmãs logo ele tinha que nascer homem.

Alex foi, como bem o dizes, um cantor marcante na nossa época, não só pelos trajes que usava como por ter assumido a sua homossexualidade, num tempo em que só de o pensar já era condenado quanto mais dizê-lo.

Lembro-me no Restauração, quando cantava o "Tira lá Máscara", fazer uma pausa e dar um maneio de anca ao toque de bateria. O "Restauração" vinha abaixo com assobios e apupos. Dizia ele que, devido a isso, o "cachet" dele era maior que qualquer outro artista.

Um dia na baixa de Luanda parou o trânsito e os transeuntes pois, para além de ser um homem alto e todo "lindão" para as garotas vinha abraçado a duas nórdicas de derreter qualquer baleizão. Eu fui um dos que ficaram ali a olhar atónito para aquelas duas beldades.

:)

Um dia no Colonial, à entrada de mais um espectáculo dele, houve uns piropos nada abonatórios dos soldados que ali estavam. Alex já farto dos insultos, deu um murro num, foi o fim da picada. Pancadaria de tal ordem que teve que ter a intervenção da polícia.

Ainda tenho guardado algumas fotos autografadas por ele creio que tiradas no "Cabaret Maxime" em Luanda onde ele actuava com as nórdicas referidas.

Depois, subitamente, Alex desapareceu como também o referes. Um dia, na nossa Póvoa, passei na "Foto Gomes" e olhei para o expositor. Estava lá um LP e reparei no nome, Alex. O disco estava escrito em francês mas o rosto que lá estava era o do "nosso" conhecido Alex.

Mais tarde vi-o actuar na Feira Popular por mero acaso. Deambulava por ali e ouvi uma voz conhecida. Fui até ao palco e vestido de branco, com os maneios que o tempo não os fez apagar, o Alex.

Agora toda a gente sabe quem é o "Mister Gay", mas nem todos sabem quem é o Alex, nós sabemos.

Abraços
 
Bem me lembro do Alex. Era cliente do salão de beleza e cabeleireiro "Ana Bolena", sito na Av. dos Restauradores 35, prédio onde eu vivia.
Era uma loucura quando ele entrava e quando saía. O cabelo bem arranjado e louro nórdico. Era uma figura cheia de carisma...
Nanda
 
Olá mano,

se não referes o "Tira Lá Mascara"
não me lembraria dessa canção. E agora lembrada já "sei" em que "ponto" da canção é que ele dava o tal "maneio" de anca.

Relembras e bem a pancadaria que houve no Cló-Cló quando do espectáculo "Parada da Alegria", devido às tais "bocas foleirosas" de militares.

Alex foi a vanguarda de quebra de preconceitos existentes na época e que hoje ainda o são.

E finalizas bem quando escreves ...
"Agora toda a gente sabe quem é o "Mister Gay", mas nem todos sabem quem é o Alex, nós sabemos".

Outros mundos, outras vivências.
Abração
 
Olá Nanda,

bem aparecida a este "quimbo" de todos nós.

Quem, como nós jovens e mundanos naquela época, não conhecia o Alex!
Ele representava a diferença como cantor e forma de estar, sendo no entanto um igual a todos quantos existiam, empregando a máxima de ..."todos diferentes, todos iguais" .

Mencionas o cabeleireiro e salão de beleza Ana Bolena como sendo onde ele tratar do seu visual.
Não sabia que vivias nesse prédio e porventura és capaz de ter conhecido a minha grande amiga Celeste que lá trabalhava, assim como a Lili, ambas do Bairro da Boavista. Deixo este link para o caso de regressares a este tema
http://reviverestorias.blogspot.com/2008/10/adeus-amiga.html

De mim já sabes, aquele kandandu
 
Olá Leão!

É sempre um prazer ler os seus escritos: que excelente memória!!!
Complementados com os de seus irmão, que dupla!
Vá lá... arregaçar as mangas e dar à estampa brochura que espante...
"O comer e o trabalhar, está no começar", sempre ouvi dizer a minha Mãe que Deus tem e vocês "ambos os dois" são de escrita fluente e verdadeira, nem precisam de ficcionar!
Abraços a ambos
Célia Cunha
 
Olá Célia,

agradeço em meu nome e no do meu mano Marius70 a sua amabilidade sobre os nossos escreveres.
É bem verdade que nos complementamos, ou não fossemos "gémeos" :)). Mas gémeos no intelecto, no pensamento e na obra, pois de nascimento distamos um ano e pico um do outro.
Não posso deixar de registar o seu dizer sobre ...sermos de escrita verdadeira ... no que à essência do tema quererá dizer.
É que não poderia ser de outra forma, pois os temas que aqui transcrevo são memórias minhas, mas são-no também do conhecimento de quase todos quantos como nós viveram no "Outro Lado do Tempo" nomeadamente em Luanda. A essência é real, pode-se é perfumá-la um pouco com perfume das nossas rosas de porcelana, para ficar mais bonita, mais aromática, mais próxima do olhar nostálgico de cada um dos que o lêm.

Com simpatia
 
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