domingo, 15 de Novembro de 2009

 

Romagem a Porto Quipiri


**Nico Fidenco _ Casa d'Irene**


 Hoje vou levar os meus Relembrares para fora de Luanda.
Um momento sem alguma particularidade de maior, assim como poderão ter sido outros já escritos.
Mas fazendo parte das minhas memórias e tendo em atenção o paradigma do Reviver Estórias, aqui fica o registo dessa recordação.
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 Bairro de S.Paulo/Luanda.
Ano de 1968. Vivia na Rua do Lobito. Assim sendo tinha 17 anos.

 Num determinado dia e mês que não posso precisar, meu pai deu a conhecer, durante o jantar, que no Domingo dessa semana iriamos até Porto Quipiri numa romagem em honra de Nossa Senhora do Sameiro.
Assim dito só teria a minha mãe, ajudada pela irmã mais nova, que preparar o farnel para o pic-nic da ordem, que ele trataria das bebidas e do gelo.
Disse ainda que a minha irmã mais velha (a que esteve no enredo da Joana "Maluca") e marido também iam e seria só combinar a hora de saída.
Ficamos algo surpreendidos com a noticia já que nosso pai não era dado a esse género de saídas, mas estando dito só havia que se tratar as coisas em devido tempo.

 No Sábado minha mãe deu inicio à preparação do vasto farnel, composto por tudo aquilo que se tem que levar para um pic-nic. Nos dias anteriores tínhamos carregado o congelador com cuvetes e pequenos recipientes com água para termos bastante gelo para as bebidas.
É que o único sitio que sabíamos onde obter gelo moído ficava fora de mão, para os lados dos Coqueiros, na fábrica da Mission, e este procedimento de “fazer” gelo em casa era normal, como bem o sabem.

 Para além de mim e meus pais a prole ainda era constituída pelos meus irmãos Marius70, Alfa, Faty e Tony. Uma particularidade da Familia é que, com excepção de Marius70 e Alfa, todos somos leões (Sporting), enquanto eles são águias (Benfica).
Tambem minha mana mais velha, que já não fazia parte da prole interna dos leões, era leoa e estava casada com um leão. Convenhamos que eram leões a mais para duas águias :)).
Posto isto, apenas para dissertar um pouco, ficamos a aguardar o Domingo para irmos até esse destino de nós totalmente desconhecido.

 Assim no Sábado, ao fim da tarde, verificamos se tudo estava em condições para que no dia seguinte começassemos a colocar as bebidas na arca e os comes nas cestas. Fizemos uma limpeza ligeira às cadeirinhas dobráveis, assim como à respectiva mesa, enrolamos as mantas próprias para este tipo de eventos, ultimas espreitadelas ao congelador para ver como ía o “fabrico” do gelo, os abre caricas e demais utensilios à mão para nada ser esquecido. Pilhas novas para o gira discos portatil, escolher os singles a levar, cartas para o que desse e viesse, enfim, nada podia falhar.

 O Domingo chegou e começamos a colocar tudo nos seus devidos lugares. Enquanto meu pai abria a espaçosa mala do nosso Chevrolet Belair



nós carregavamos a arca com as Missions, Cocopinas, Sprites e umas Nocais. Entre umas e outras bebidas iamos colocando o gelo formado nas cuvetes e nos recipientes, fazendo-o infiltrar nas aberturas formadas pelas garrafas. Por cima de tudo e bem acondicionados iam as fatias de queijo, o fiambre, a mortandela e alguma fruta.
A arca e cestos foram os primeiros a entrar na mala, depois a mesa, cadeirinhas e por fim as mantas. O gira discos foi dentro do carro, junto ao vidro de trás.

 Com tudo bem arrumado fomos ter com a minha mana e cunhado (viviam na Rua do Vereador Prazeres), e encher o depósito nas bombas da Shell do respectivo Largo.
O Sol já ia alto e começava a esquentar quando finalmente os dois carros arrancaram a caminho de Porto Quipiri. Metemos à António Enes, entramos na Estrada da Lixeira e rumamos em definitivo pela Estrada do Cacuaco.

 A Vila de Cacuaco, onde já tinhamos ido várias vezes, dista de Luanda cerca de 20 Kms. Estacionamos quando chegamos à Ponte do Panguila (ponto “obrigatório” de paragem) para ver se víamos, naquela parte do rio Bengo, parcialmente coberto por largas folhas, algum crocodilo sempre alvo da curiosidade do humano. Tiraram-se umas fotos, não vimos nenhum daqueles repteis e retomamos o percurso.



 Devido às ondas de calor vimos a serem criados no asfalto desenhos de formas estranhas, distorcidas, assim como algumas miragens.
A vegetação luxuriante nalguns casos e noutros quase que seca acompanhavam-nos ao longo da estrada.

 Percorridos mais alguns kilómetros eis que à nossa direita surgem as salinas do Cacuaco. Um "mar de areia branca” estendia-se perante o nosso olhar. Pequenas montanhas de sal sobressaíam na planicie quase geometrica igual da paisagem.
Para as visualizarmos com mais pormenor meu pai abrandou um pouco a velocidade do Chevry, enquanto meu cunhado, que ia à frente no carro dele, parou aguardando por nós. Entretanto uma coluna de veículos começou a aparecer no nosso horizonte e olhando para trás verificamos igual fila. A progressão começou a ser mais lenta, pelo que deveriamos estar a chegar.

 Mas só passados uns bons Kilómetros é que vislumbramos aquilo que nos pareceu poder ser o destino, até confirmarmos quando vimos a placa a referir Porto Quipiri.



A viagem de cerca de uns 50 kms desde que saídos de Luanda tinha chegado ao fim. Apesar de ser a primeira vez que ia a Porto Quipiri nunca uma viagem tão curta me pareceu tão longa, tendo como comparação o facto de ter ido algumas vezes até à Barra do Quanza, quando mais novo, que me pareceu ser mais longe e ter-se demorado menos tempo.
Mas a verdade é que na presente situação estavamos perante uma romaria e essa ser a razão de tanta demora na chegada, atendendo que os carros eram às dezenas.

 Mastros embandeirados, a igreja, situada no cimo de uma quase rasa elevação em terra à direita de quem entra na Povoação, estava toda engalanada e largas centenas de pessoas movimentavam-se dando um ar festivo ao local.



 Enquanto percorriamos a estrada de asfalto em busca de estacionamento deu logo para me aperceber que Porto Quipiri seria constituída talvez por uma dúzia de casas térreas e pouco mais. Em frente à igreja, mas do outro lado da estrada, havia uma bomba de combustíveis e logo em paralelo um restaurante/café, uma espécie de tem tudo, num edifício sobre o comprido, género armazem.
Durante a tarde confirmei esta minha primeira impressão.

 Continuamos a nossa marcha com a atenção devida, até vermos um policia cipaio a encaminhar os veículos para um terreno de uma fazenda situada no lado esquerdo.
Saidos do carro e ao pousarmos os pés calçados com quedes (nome que davamos às sapatilhas de ginástica que não tinham atacadores) e sandálias, vimos que o solo era quase todo acastanhado sentindo-nos “deslizar” ao mesmo tempo que uma pequena mas espessa nuvem se elevava como que dançando à nossa frente e à de todos os outros que pisavam o chão.
Era caruma seca caída, atapeando o solo de toda aquela fazenda e "lançava" ao ar os seus "queixumes" de tanto estar a ser pisada. O facto de quase escorregarmos era por a caruma ser de forma arredondada, tipo agulhas, e como estavam secas .....

 No percurso à procura do lugar ideal para montar a “tenda” vimos já mantas estendidas, mesas abertas, garrafões ainda com o “capacete branco” (o capacete indicava que era vinho do bom vindo da "metrópole"), alguma comida à vista, música vinda de gira-discos portáteis e de rádios. A musica era basicamente própria para o momento; Conj Maria Albertina, Pais e Filhos, Trio Odemira, Tino e o seu acordeão e de outros conjuntos tipicos. Também se ouvia bastante musica brasileira e alguma (pouca) angolana. Aquela fazenda estava convertida num autêntico arraial minhoto.
Encontrado o espaço próprio, na concepção de meu pai, lá pousamos as "imbambas" e marcamos o “nosso território”. Mantas para o chão, mesa montada, cadeirinhas abertas, a arca encostada a um pinheiro para a proteger do sol e o gelo aguentar-se e as cestas da comida também à sombra.
Logo outras familias ficaram perto de nós, procurou-se saber de que região eram na “metrópole” e a conversação e confraternização tomou logo lugar entre pessoas, algumas das quais só se estavam a conhecer naquele momento.

 Tudo trazido e nada mais havendo a fazer a não ser “vêr” o tempo passar (ainda não estava na hora de atacar verdadeiramente as cestas), eu, Marius70 e Alfa começamos a investigar o local e arredores. Embrenhamo-nos no interior da fazenda e exploramos a zona até vermos um sinal de "não avançar mais". Respeitamos a tabuleta, nada vimos de significativo e regressamos ao “acampamento”.
Nesse espaço de tempo mais familias haviam chegado, mais vozes se ouviam, os sons musicais eram dos mais variados e até parecia que havia uma disputa sobre quem tinha as colunas que produziam o som mais alto.

 Comemos, bebemos (as bebidas continuavam fresquinhas) e depois, novamente os três, saimos para vermos a igreja e sentirmos a fé que para aquela Povoação fazia convergir largas centenas de crentes.
O momento religioso, para além da missa campal, era a saída do andor de Nossa Senhora do Sameiro que fazia um pequeno percurso pela estrada de asfalto e depois regressava à igreja.
Foi nesta saida, após almoço, que confirmei a primeira impressão tida de como era constituida a localidade. Pelo menos no que a minha visão alcançava.

 Entretanto as familias ao som da musica dançavam, dando largas à folia e à “libertação” da alma que o arraial proporcionava. Era vê-los a dançarem, uns em calções, outros em tronco nu, uns calçados, outros descalços, sobre a caruma espessa. A ocasião era festiva, principalmente à moda minhota e do douro litoral
Outros observavam, talvez aguardando que o espaço se alargasse para poderem tambem entrarem na diversão. As familias estavam alegres e recordavam as festas que por certo na “metrópole” muitos viveram.



 Procuramos de novo ser exploradores e percorrendo a estrada no sentido Norte demos com uma fazenda a perder de vista, com um plantio sem igual de cana de açucar e muitas palmeiras. Um riacho forte no caudal serpenteava por aquela enorme fazenda, servindo talvez para que as suas águas fossem captadas para as diversas actividades desenvolvidas pelo Homem na plantação.

 Terminadas as cerimónias religiosas e após a merenda começamos a pensar em regressar. Se na ida foi o que foi, no regresso seria quase a certeza de se ter uma fila interminavel de veiculos. O Sol já dava mostras de nos querer dizer “adeus” e meu pai não queria fazer o percurso de regresso à luz dos farois.
Mas mesmo assim não nos livramos de regressarmos a “passo de caracol" e chegarmos bastante tarde a casa. Mas, como diz o povo; cansados, mas felizes.

 O pior seria o levantar do dia seguinte, pois todos trabalhavamos e no duro. Aquele dia tinha-se tornado mais cansativo que uma dia de praia. Pelo menos para nós os três que nas nossas explorações tinhamos palmilhado “bué” de kilometros.

** aspecto da igreja em dia não festivo **


 Nunca mais fomos áquela romaria a Nossa Senhora do Sameiro.

 Anos mais tarde passei inúmeras vezes por aquela Povoação quando na vida militar estive colocado em Ambriz e Zau-Évua (zona de S.Salvador).

 Saudações e Inté




sábado, 24 de Outubro de 2009

 

Namoro Negro


 Confesso que senti alguma dificuldade em dar titulo a este tema, já que dois surgiram com a força suficiente para o serem.
Dado tratar-se de um tema em que procuro Reviver o momento em que pela primeira vez ouvi a canção do fundo musical, nada mais natural que o intitulasse de “A Canção é o Tema”.
Só que no tempo marcante em que ouvi a canção estava eu com o “Namoro Negro”.

 Assim decidi dar o titulo de “Namoro Negro”, procurando prestar a minha homenagem a quem naquele tempo da minha ainda jovem vida por mim se apaixonou de forma sincera e totalmente desprendida.
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 Ano de 1966/1967. Bairro de S. Paulo na cidade de Luanda/Angola.
Teria 15/16 anos e morava no nr 14 da Rua do Vereador Prazeres. Situava-se esta Rua entre a do Quicombo e a da Missão de S. Paulo.

 Percorrendo a Rua no sentido do Cinema Colonial (Cló-Cló como carinhosamente o tratavamos) logo a seguir à casa onde vivia era a vivenda da Familia Henriques [Sr. Henriques, D. Margarida e os filhos Oscar, Arlete, Ernesto, Manuela, Eugénio (Zé), Carlos e Jorge]; depois a Familia Sousa (Sr. David, D. Esperança e os filhos António, Isabel, Domingas, Cristina e mais um ou outro de quem não me lembro dos nomes e a Matilde).
Antes de chegar ao inicio do muro do Colonial e imediatamente a seguir à Familia Sousa vivia o Sr. Licurso e a filha Julieta. No momento não me recordo do nome da esposa/mãe.

 Esta descrição tem, como é evidente, ajudar a identificar algumas das familias vizinhas à minha.
No nr. 14 interior vivia a Familia Leonor [Sr. Simões, D. Natália e os filhos José (Zé) e Francisco (Xico)], e na frente a Familia Lima [Sr. Lima, D. Aurora e os filhos Conceição, Josué, Mário, Alfredo, Fátima e António)].
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 Como acima refiro decorria o ano de 1966/7. O céu, como que tingido de tons raiados no seu crepúsculo, tinha dado lugar à exuberância do anoitecer, antes da abrupta chegada da noite.
Luanda estava a repousar após mais um dia de intenso labutar sob o seu sol escaldante.
No Bairro de S.Paulo, nomeadamente naquela
“minha” rua, o silêncio era, de quando em quando, rompido pelo “chiar” de pneus ou o “ron ron ronnnnn” de algum carro ou motorizada que circulavam ou paravam nas bombas da Shell, sitas no Largo da Rua.

 Seriam umas 20h30 e as familias, depois de jantarem e arrumarem a cozinha, preparam-se para a cavaqueira com os vizinhos, uma saída até às montras da Rua Paiva Couceiro ou tomarem um café no Ginga, no Munique (em 1974 passou a chamar-se Ponderosa), ou no Londres.
Outras talvez possam ir até ao Cló-Cló e verem o filme que esteja a passar ou então irem até ao Café Mariazinha, que fazia gaveto com a Rua Missão de S.Paulo e a Rua de Ambaca. No balcão e nas mesas a servirem os clientes estariam o Sr. Hermenegildo, a D. Mariazinha e o filho Carlos.
A filha, de nome Luisa, raramente ajudava os pais à noite. A sua ajuda era mais aos Sábados à tarde e aos Domingos de manhã.


** no nr. 14 da Rua_ano 1961. D. Natália, filho José e meu irmão mais novo Tony **


 A noite quente também convidava a um passeio mais alargado até aos Combatentes para se verem as últimas novidades nas montras e depois beber-se um café no Caniço, Mónaco ou Paladium. Ou um saboroso gelado no Monte de Neve, junto ao Paladium, ou até no próprio Mónaco.
Tudo dependia da disposição, da constituição da prole e dos escudos angolanos de cada família.
O Bairro de S.Paulo era essencialmente constituído por trabalhadores por conta de outrem. E a vida não era fácil, como bem o sabem os que lá viveram e trabalharam.
Não havia televisão em Angola e cada um vivia o tempo da melhor forma que soubesse, que pudesse.


 Acabado de jantar levanto-me e preparo-me para sair. Tinha uns 15 ou 16 anos como acima menciono.
Antes de sair digo
… “estou aqui ao lado” … .Mais uma vez ouço o que nunca gostei de ouvir. Mas já estava, infelizmente, habituado àqueles ditos e não era por mais uma vez os ouvir que me iria inibir de estar com quem eu queria estar.
Com olhar frio e interrogativo olho para trás, encolho os ombros e calmamente saio. Cá fora, junto à casa onde vive, está o meu amigos Carlos e a mana Manuela que espera a chegada do namorado.
Com as mãos nos bolso e olhar pensativo devido ao que tinha ouvido, pois magoava a minha sensibilidade e estima própria, saúdo os dois e converso um pouco com o Carlos.
Na vivenda mais ao lado e ao portão está Cristina , que por mim aguarda.


 Na altura trabalhava na oficina de José Sousa?? Andrade, sita na Rua José Anchieta, no Bairro de Vila Clotilde. Ganhava 45$00 angolanos por dia e recebia à quinzena.

 Cristina, uma das filhas de David Sousa e D. Esperança, era uma moça negra fula (filha de mãe negra e pai mestiço).
Ela adorava-me, era e sempre foi uma apaixonada por mim. Mesmo quando me
“perdeu”.
A família também gostava de mim, acarinhavam-me, tratavam-me com atenção, consideração e importância, sendo o “menino querido” daquela casa.
A esse bem querer correspondia com o meu sorriso, com o meu respeito, com a minha presença de homem já feito no trabalho e na responsabilidade.
Gostava de estar com aquela Familia, gostava de estar com Cristina e com ela conversar.
E aquela noite, a exemplo de anteriores e futuras, não fugia a esse estado de alma.


 Ainda do lado de fora do portão dei-lhe um beijo leve, sereno. Comportava-me como um homem maduro, apesar da minha jovem idade.
Conhecia a Cristina há alguns anos, pois naquela casa ela tinha nascido e nela vivia quando para aquela Rua a minha Familia foi morar.
Sendo vizinhos desde que cheguei a Luanda em 1962, tinhamo-nos
“descoberto” há pouco mais de um ano.
Abriu o portão para eu entrar e já dentro a ele continuamos encostados, enquanto ela “bebia” o meu rosto, o meu sorriso, o meu olhar.

 Ao fundo da Rua via-se o néon de alguns reclamos; da Foto Beleza, da Sabú, do Chiado de S.Paulo, da Casa Lisboa e outros. As bombas da Shell, no Largo bem ao centro da Rua, despejavam a sua poderosa iluminação até vários metros de distância.
Da bilheteira estreita do Colonial saia uma réstia de luz e lá dentro estaria por certo o Sr. Ramos, que vivia no Largo de Ambaca, a fazer esse trabalho extra para ganhar mais uns
“angolares” pois, e já o disse, a vida não era fácil.
Um ou outro transeunte abeira-se e dobrando o tronco compra o bilhete para a sessão das 21H30, enquanto a sua silhueta toma uma forma esguia e grotesta devido à contra luz da luz vinda do interior da bilheteira com a luz pálida e soturna do candeeiro público existente no passeio.


** ano 1970/19 anos. Com meu pai, quando viviamos na Rua do Lobito **


 A Rua começa a agitar-se com as brincadeiras dos mais novos nos seus largos passeios, enquanto mães e pais cavaqueiam uns com os outros.
Daquele meu privilegiado posto de observação vejo meus manos Marius70 e Alfa atravessarem a estrada e irem ter com os nossos amigos Tonito, Manuel, Filó, Manecas, Flávio, Luis Filipe (Cid) e outros mais, para a conversação própria de jovens da mesma geração.
No portão de minha casa a minha mana mais velha conversa com a sua grande amiga Manuela, enquanto ambas esperam a chegada dos respectivos namorados.
A Rua, que até há momentos parecia estar adormecida, ganha vida, colorido, voz.


 Aquele meu observar era sempre o momento que antecedia o concentrar-me na conversa com Cristina, pois tinhamos bastante que aprender um com o outro.
Por vezes apareciam a nosso lado as manas Isabel e Domingas e D. Esperança e a conversa passava a ser mais alargada, mais rica em conhecimentos a transmitir. Quando isso acontecia, sentavamo-nos nos degraus da escadaria da vivenda para ficarmos mais juntos, menos dispersos, mais intimistas na conversação.


 A noite que estou a Relembrar estavamos apenas os dois ao portão.
Ouvimos o segundo toque de chamada para a sessão do Colonial, conversamos ainda um pouco e depois fomo-nos sentar no maiple sito no alpendre da casa.
Um pouco mais tarde começamos a sentir que a Rua ficava mais silenciosa, sinal que algumas mães e filhos mais novos se estavam a retirar para o descanso, pois era necessário recuperar novas forças e energias para a labuta e estudos do dia seguinte.
Sabiamos que alguns pais não acompanhavam a familia no imediato, ficando a acabar a cavaqueira e a consumir o ultimo cigarro. Era o habitual de quase todos os dias.
Ouviamos o falar alto e as gargalhadas dos nossos amigos e amigas, sabendo que daí a pouco elas também teriam que recolher quando os pais se despedissem uns dos outros. Eram raparigas e para elas tinha chegado a hora de abandonarem o grupo.
Também sabiamos quais as que ficavam a namorar e as que tinham o irmão como
“sentinela”, como “controlador”, caso o pai já não estivesse com os amigos. Mas, regra geral, acabavam o namoro quando o pai recolhesse. Isto se namorassem no exterior da casa. Era assim naquele tempo.

 Estavamos no maiple sentados quando me chegou o som do trautear de uma canção. A principio não liguei mas a forma sentida e melodiosa com que esse som me estava a chegar fez-me levantar e dirigir-me para o portão. Cristina, não sabendo a razão daquele meu procedimento, veio ter comigo.
Vi vir do lado do Colonial para o nosso dois militares caminhando sem pressas, absorvendo talvez o prazer daquela noite calma, quente e estrelada. Eram eles os autores do trautear da canção que me fez levantar para saber de onde vinha o som, o tom enternecedor dos versos que deixavam queixumes, que deixavam sofrimento.


 Ficamos a vê-los passar à nossa frente, continuando o seu lento caminhar, sussurando por vezes o poema da canção que me fez “arrepiar”. Vimo-los absortos na entrega de dar alma ao sentimento que queriam transmitir à melodiosa canção. Continuamos a vê-los a afastarem-se, no rumar do seu caminhar.

 Cristina ainda nada tinha percebido até à altura de lhe perguntar que canção era aquela que os militares cantarolavam, pois nunca a tinha ouvido na rádio ou nas discotecas (naquele tempo, em Angola, discotecas eram os estabelecimentos onde se ouviam e compravam discos) e que tinha ficado sensibilizado com o que ela (canção) estava a querer transmitir.
Respondeu que era uma canção que estava a passar há algum tempo na rádio e que tinha a ver com os militares vindos da “Metrópole” , as mães deles, coisa assim do género, mas não sabia qual o titulo ou o conjunto que a tocava.

 A melodia ficou em mim memorizada e como passados alguns dias ainda a recordava, procurando trauteá-la, quis saber alguma coisa sobre a mesma.
Após alguma insistência na pesquisa, pois não tinha nenhuma referência digna, fiquei finalmente a saber o nome da canção e o nome do conjunto.

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 Hoje recordo essa melodiosa canção. De forma diferente da habitual entendi só neste momento dar visibilidade à capa e ao aparelho musical, e não no seu inicio como tem acontecido.
E, por esse facto, concluo que simplesmente a “Canção é o Tema”

**Conj. Oliveira Muge – A Mãe**

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 Quanto à Cristina continuamos, mesmo quando, ainda no Bairro de S. Paulo, mudei de rua.
Mas éramos novos e com a mudança de rua passei a ter outros caminhos, outros percursos.

 Sem dar por isso fui-me “desligando”, apesar de todos os dias passar naquela "minha" Rua.
Quando a via ía ter com ela ou ela chamava-me, falavamos do meu novo rumo de trabalho e sorriamos de algumas conversas tidas no nosso passado ainda recente, como se esse periodo da nossa vida não tivesse existido na forma como foi.

 O Tempo foi passando, a nossa amizade mantinha-se, até ter sido alertado por alguem muito próximo dela que Cristina sofria bastante quando não me via durante uns dias, que sofria quando dela me despedia, pois continuava por mim apaixonada.

 Por nunca me ter apercebido desse seu sofrimento e não querendo que isso continuasse a acontecer, tomei a resolução radical de deixar de passar naquela “minha” Rua de sempre.

 Cristina foi uma bela página do livro da minha adolescente mocidade.
Sei, ainda hoje, que terá sido a que mais de mim gostou, que foi uma eterna apaixonada.
Até determinado momento da minha vida amorosa, daqueles meus verdes anos, nenhuma outra me terá querido tanto como Cristina.

 Quando "sentiu" que nossos caminhos iriam definitivamente divergir, ofereceu-me uma lembrança eterna no tempo e no sentido, tendo-me dito … ofereço-tos com todo o meu amor para que me mim te recordes sempre que os puseres … .

 Até hoje nunca necessitei de os usar mas isso nunca me impediu de a recordar, talvez por quase todos os dias os visualizar por necessidade de mexer no local onde se encontram.
E lá sempre estarão até à minha "viagem derradeira".

 Saudações e Inté




quinta-feira, 1 de Outubro de 2009

 

Casamentos "À Pato"


**Los Stop _ Salud Dinero y Amor**


 Como já mencionei nalguns temas o facto de pretender dar corpo a algumas das minhas vivências vividas no ”Outro Lado do Tempo” não tem só e apenas a ver com as pequenas estórias que vou revivendo, mas também com o procurar revisitar alguns lugares, relembrar momentos, acontecimentos, e fazer-nos ”transportar” para um tempo que já não é o nosso, mas já nosso foi.
Não podem de forma alguma estes meus reviveres serem considerados como saudosistas, mas devem ser vistos e lidos como nostálgicos das memórias que nos povoam as mentes, dos tempos da nossa meninice, da nossa adolescência, da nossa juventude, daquela vida vivida em África/Angola.

 Assim sendo hoje vou relembrar o que algumas vezes fiz, o que alguns dos que lerem o tema também o poderão ter feito.
Porque era comum, porque fazia parte das aventuras e capacidades de cada um, porque a juventude e a forma irreverente de alguns de nós vivermos a vida fazia com que quisessemos que acontecesse, que nos metêssemos naquelas ”alhadas”, naqueles dilemas/problemas.

** placa aeroporto_anos 60 **


 Este momento foi vivido com o meu mano Marius70 que comigo partilhou esta minha incursão em busca do casamento ideal para usufruirmos de um ”Casamento à pato”.
Por certo alguns de vós já o conhecerão através do seu blog Deixa-me que recomendo, tendo este links para outros seus blogs de temas que considero interessantes.

 Como escreverei num próximo tema só em 1974, e após ter saído da vida militar, é que tive o MEU primeiro carro. E mesmo assim foi porque na altura tive imperiosa necessidade de o ter, face à actividade laboral que então desenvolvia.
Se sem carro eu já considerava Luanda como quase ”minha”, então a partir do momento em que o tive Luanda passou a ser minha amante completa, nomeadamente a sua noite.

 Após ter também adquirido a minha própria ”Independência”, terminado o capitulo militar, alguns amigos acompanharam-me nas aventuras ”loucas” de noites mais que vividas, de dias com mais de 24 horas, de estradas sem fim, de inúmeras directas; ”noite/banho para “acordar”/trabalho/entardecer para “dormitar” um pouco/noite” e o ritmo prosseguia durante dias.

 A ”aventura” que hoje vou relembrar foi noutras ocasiões vivida com o meu amigo Henrique Mocho, o Xico, o Artur (Bo. Caop) e mais um ou outro.
Só que esta com o meu mano Marius70 decorreu de forma diferente das demais, porque tive(mos) que ”dar de frosques” antes do tempo previsto, O QUE NUNCA ME TINHA ACONTECIDO.

 Irei, dentro da estória, relembrar como se processava o ”esquema”, pelo menos como eu praticava.
Mas regra geral todos eram na sua essência idênticos e tinham como principio serem praticados apenas por dois amigos, para se obterem alguns resultados positivos.
Tudo quanto fosse acima desse número seria um risco evidente, por não ser funcional.

** Cidade Alta para a Fortaleza **


 Tendo já alguma prática desse tipo de ”penetração” estava mais que à vontade para o desenvolver com quem eu ”convidasse” para me acompanhar.
É obvio que esse amigo teria que me dar a garantia de saber estar, de saber acompanhar, de saber situar-se no “terreno inimigo”.
Não podia de forma alguma dar barraca, não podia ”abanar” ao primeiro olhar de suspeição.
Há que dizer, como bem sabem os que se envolveram em ”incursões” deste género, que nunca se deve estar até ao fim e saber ”sentir” o momento próprio da retirada.

 O ”esquema em grande estilo” começava por uma ronda a algumas igrejas, ver o panorama do casamento, como se apresentavam os convidados, como eram os carros e depois decidir.
É evidente que quando se faziam pesquisas deste género já se tinha que ir com alguma fatiota preparada, ou seja, estar-se pronto para o que desse e viesse.
Depois de tudo visto, analisado e de se saber onde seria o copo de água - fundamentalíssimo :)) -, aguardava-se, sem dar muito nas vistas, que a comitiva chegasse ao local do repasto, juntava-se ao grupo de convidados e então estava-se preparado para um

UM CASAMENTO “À PATO”

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 Esta acção desenrolou-se no Restaurante Restinga, bem no inicio da Ilha, como por certo se lembrarão alguns dos que lerem o tema.

** Restinga e panorâmica da cidade **


 Dados os passos essenciais acima descritos, eu e o meu mano Marius70, depois de tudo analisado, visto e revisto, desenvolvemos o plano de acção.
Vestidos a preceito, juntamo-nos à comitiva e com a maior desfaçatez (era assim que procedia, daí o grande estilo) tiramos fotos com os noivos no jardim existente frente ao restaurante, assim como as do conjunto geral.
Abraços, beijinhos, felicitações e há que subir a escadaria para o restaurante superior.
A hora do estômago já há muito havia batido e aquele pessoal ainda com fotos [convidado sofre :)) ].

 O ”cerco” à mesa, o ataque às bebidas, risos, mais abraços e finalmente o momento de se saber como se chama o noivo, a noiva, como se chamam os pais dele, dela, e as coisas próprias de um plano minuciosamente preparado.
Só que primeiro comemos e bebemos, que era o objectivo principal. Daí chamar-se “Casamento “à Pato” e tinhamos que fazer jus ao nome. Depois é iriamos procurar obter as informações necessárias para o fim em vista.

 nota 1:- **Um aspecto que se tinha em atenção era o de se saber conversar com os empregados, mormente com o que pudesse estar perto da porta de saída (quando esta era guardada), como era o caso, não fosse o diabo tecê-las.**

 Com a ”lata” própria dos kaluandas a sério trocamos impressões se haveriamos ou não de dançar quando os noivos abrissem o baile. Decidimos que dependeria do tempo decorrido entre o entrar a ”dar aos maxilares” e a abertura da dança e também, como é obvio, se desse para lançar “pescaria” a alguma garina ”solitária”, caso se criasse alguma empatia.

 nota 2:- **Numa situação como a nossa a atitude de se dançar ”ajudava” a que não se levantassem suspeitas. Pelo menos no imediato.
Mas regra geral evitava-se esse risco pois a motivação não era o dançar, mas sim o espirito da aventura, da adrenalina que tomava conta dos ”penetras”, do gozo pessoal, a satisfação da irreverência da situação.**
**Como já se aperceberam, ao estar a reviver este momento com o meu mano Marius70 estou em simultâneo a descrever toda a perspectiva comportamental que se deveria ter quando se tivesse que se aventurar esquema deste género.
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 Enquanto deambulavamos por entre a farta mesa e deixavamos uma ou outra palavra numa conversa qualquer, com um riso ou sorriso à mistura, percorriamos com o olhar a sala e os presentes para ”sentirmos” se estaria, ou não, chegado o momento da retirada estratégica.
Como já mencionei, havia que saber qual o momento certo para a saída.

  nota 3:- **Referi no inicio que uma das tácticas era a de criar empatia com os empregados, nomeadamente com o tal que ficava à porta, e dar-lhe a entender, sem NUNCA lhe dizer, a “qualidade” da nossa presença naquele casamento.
O truque aqui consiste em o empregado deduzir convictamente que nós não éramos convidados e proporcionar-lhe a satisfação de também entrar no “jogo” e colaborar na saída rápida, se necessário.
Concluindo, ele ficava a saber que a porta NÃO PODIA estar , em momento algum, fechada.
**

 Aconteceu que a dado momento ”sentimos” que alguns olhares ”pousavam” sobre nós.
Em tempo oportuno e após sabermos os nomes dos noivos, demos parabéns à noiva como sendo convidados do noivo e parabéns ao noivo como sendo convidados da noiva. Parabéns aos pais de ambos, parabéns a todo o mundo. Foi um fartote de parabéns.
Só que enquanto decorria a dança e nos movimentávamos em volta da mesa, ter-se-á dado o cruzamento da informação.
O nosso à vontade era tanto que não nos estavamos a aperceber que não mantinhamos presença demorada junto dos grupos de jovens presentes, nem de ninguem em particular.
Deixavamos uma palavra aqui, outra ali, um sorriso, mas tudo quase sempre em andamento.
Devido a esse factor [erro grave], "despertamos" a atenção dos familiares dos noivos e deles próprios.



 O certo é que tinha chegado a nossa hora de bater em retirada.
Com o silêncio que momentaneamente se fez, pelo menos ficamos com essa sensação, olhei de soslaio para o empregado junto à porta e pelo olhar dele percebi que tinhamos sido ”detectados”.

  nota 4:- **Em situações deste tipo, ao contrário de outras, é imperioso que os “infiltrados” estejam o mais perto possível um do outro para que o alerta seja rapidamente perceptível a ambos.**

 Tendo quase certeza de que estavam a chegar à conclusão que nós NÃO pertenciamos àquele casamento antecipamo-nos e descontraidamente, mas com passada firme, dirigimo-nos para a porta da ”salvação”.

 nota 5:- **quem conhece o Restaurante Restinga lembra-se bem que para o primeiro andar só havia uma porta de entrada e saída para os clientes (a que ficava virada para o jardim), pois a outra, tipo caracol, virada para o mar, era utilizada pelos empregados na prestação do serviço, embora também pudesse ser utilizada pelos clientes que quisessem ir directamente para o bar/esplanada.**

 Como o empregado se tinha apercebido da situação na altura do berro fecha a porta ele “não se encontrava” no seu posto mas sim a ”tratar” dumas quaisquer bebidas. Só que antes disso, e como cúmplice que quis ser, tinha deixado a porta entreaberta, preparada para fuga.
Aceleramos o passo e “voamos” por cima das escadas. Por dispormos de boa condição fisica e sendo jovens rapidamente alcançamos a escuridão da noite e bem depressa desaparecemos antes de sermos ”chacinados” por aqueles ”sovinas”::)).

 Embora não soubessem qual era o nosso carro (um dos cuidados do ”esquema” era também esse), aguardamos o tempo necessário para que o ”temporal” passasse a fim de nos metermos no meu Morris Mini Cooper AAV-15-40 (verde seven up)



 que roncando nos conduziria por aquela densa selva de cimento e de alcatrão da cidade de Luanda.

 O riso e a satisfação do ”dever cumprido” acompanhavam-nos.

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 Aos que tiveram este tipo de vivências, um abraço de felicitações por esses vossos momentos vividos.

 Ao meu Mano Marius70 um Grande Abraço de Amizade e por naquele dia ter-se portado, como meu parceiro, à ”altura da situação”.

 A Todos

 Saudações e Inté




quarta-feira, 16 de Setembro de 2009

 

Joana "Maluca"


*Nelson Nede _ Domingo à Tarde*


 Hoje irei procurar retratar o melhor possivel, dentro do registo que dela tenho na minha memória, uma das personagens mais populares de toda a Luanda, a Joana “maluca”.
Joana "maluca" era vista a percorrer quase toda a cidade, mas sabia-se que percorria com mais incidência o “meu” Bairro de S.Paulo, o Bairro Operário, o Marçal e o Sambizanga (Sambila).

 Quando a miudagem a avistava era a gritaria infernal …. “Joana maluca”, “Joana maluca” …. e começavam a atiçá-la correndo de um lado para o outro, fazendo com que ela fugisse ou se lançasse em correria desordenada sobre eles com um pau nodoso a fim de os afugentar. E não se detinha em dar com o pau nalgum miúdo(a) que não fosse mais lesto(a) na fuga.
Quando para eles corria lançava pragas terríveis e a dado momento parava, fazia com o pau uma cruz no chão e de seguida cuspia sobre ela.
Nunca percebi a razão de tal gesto/acto, nem nunca ninguém mo soube explicar. “Coisas” da mente perturbada de Joana, talvez com o significado que só ela poderia saber.

 Mas o que a maioria das vezes a miudagem aguardava era quando, depois de muito “xingada”, a Joana “maluca” levantava as suas pobres e sujas saias e sem cuecas mostrava as suas intimidades, as suas partes baixas, enquanto dizia …”querem ver cinema à borla, querem”…, sendo este gesto a sua "imagem de marca".
Esse gesto fazia com que a miudagem ficasse mais atrevida, começando de novo a troçar e a rir dela, e lá tinha a Joana “maluca” que deles fugir.
Depois invertia-se o filme. Eram eles a fugir quando ela, já desesperada e não sabendo como deles se desenvencilhar, parava, olhava-os e "partia" para cima deles com a ameaça do nodoso pau.
Poder-se-á dizer que cada uma das partes sabia qual o “papel” a desempenhar naquele acto.
Por vezes os adultos intervinham em socorro dela, já que a miudagem ficava chata e não sabia quando parar.
Cabe-me aqui dizer que nunca me meti com ela, assim como meus irmãos. Não por medo ou receio, mas pura e simplesmente porque a nossa forma de ser e de estar não era virada para esse tipo de comportamento.



 Verdadeiramente nunca soube a razão dela ser “maluca”. Lembro-me de sempre ter ouvido dizer que era uma rapariga atinada, com juízo, e de duas versões para que o deixasse de ser.
A primeira versão é que teria sido uma boa, inteligente e esforçada aluna, com grau académico já avançado, mas que de tanto estudar teria tido um esgotamento que a levou àquele estado de demência.
A segunda versão foi a de que lhe teria subido um parto à cabeça. Sobre esta versão ouvi ainda dizer que teria tido uma filha e que esta estaria entregue aos cuidados da Missão.
Não sei se alguma das versões será a verdadeira, ou se não terá havido uma outra de todos desconhecida.
O certo é que a Joana “maluca” existiu nas condições de vida e miséria que teve e envolta nesse mistério.

 Lembro-me que andava sempre descalça, suja, desgrenhada, piolhosa, com roupa estragada enrolada no seu magro corpo, e o rosto sulcado por rugas bem vincadas que atestavam a sua vida degradante e errante, enquanto os pequenos olhos inquietos faiscavam face ao terror que a miudagem e a gritaria lhe infundiam.
Via-a a apanhar beatas caídas nos passeios, nas ruas e algumas vezes alcoolizada. Raramente a vi a estender a mão à caridade, mas quando lhe davam alguma peça de roupa rasgava-a pois era assim que queria ver a roupa no seu magro corpo.
Não havendo miúdos e nalguns casos outros mais graúdos a meterem-se com ela, era uma paz de alma. Passava, recebia ou não o que lhe dessem e seguia o seu caminho.

 
Aqui começa a estória de um meu momento com a Joana “maluca


 Teria uns 14 anos quando esse momento aconteceu. Morava então na Rua do Vereador Prazeres,nº 14, no “meu” Bairro de S.Paulo.

**foto de 1961.Entrada da casa onde viviamos**
*Um amigo da familia e meus irmãos mais novos*


Estava sentado com a minha irmã mais velha e uma vizinha dela (não me lembro quem) num banco de cimento que ficava na entrada para as casas interiores do Sr. Mota e encostado à pensão da D. Conceição?!.
Era o chamado "banco da má-língua”, assim baptizado pelas suas “frequentadoras”.

*~ foto de 2007. Apesar do ambiente degradado o banco ainda "resiste" e encontra-se alguém nele sentado ~*


 Estavam ambas entretidas a “afiar a lingua” quando vimos a Joana “maluca” aparecer do outro lado da rua, no sentido Sambizanga/Bairro Operário.
Viu-nos, parou no meio da rua, talvez “admirada” de não aparecerem miúdos a meterem-se com ela, como seria habitual.
Nós observamo-la e estava ela a olhar para nós quando a minha irmã teve uma “ideia luminosa”. Chamou-a, ela veio, e quando estava mais ou menos a um passo de nós diz a minha “atrevida” irmã … “ Oh Joana! Tás a ver o meu mano que é tão bonito e loirinho e não lhe dás um beijo!!

**a "atrevida" da minha irmã**


 Penso que fiquei tão "surpreso" com o que ouvi que nem sequer tive tempo de reagir.
A Joana “maluca” chamou um "figo à proposta” e num ápice debruçou-se sobre mim, que continuava sentado, segurou-me o rosto entre as mãos e deu-me um valente e sonoro beijo enquanto minha irmã desatava rir que nem uma perdida.
Terá ficado tão surpreendida com o facto que a única reacção que teve foi rir, rir, até perder o fôlego, pois por certo que nunca contou que a Joana “maluca” aceitasse o seu "convite".
Bom, quem saltou e saiu do banco a correr que nem maluco fui eu, pois ao receber o INESPERADO beijo da Joana “maluca” também “levei” em cheio com todos os hálitos e odores que a sua boca e corpo exalavam.

 O que sei foi que a partir daquele dia, sempre que via-a a aparecer, resguardava-me o suficiente para não mais me deixar surpreender.
E diziam que era “maluca”. Maluca, uma treta. Naquele dia e naquele momento não o foi, ou não o quis ser :))

 Assim, com mais uma das estórias das minhas vivências, lembrei e recordei alguém que foi uma das figuras mais carismáticas e emblemáticas de Luanda, a Joana “maluca” da minha infância.

 Saudações e Inté




sábado, 29 de Agosto de 2009

 

Aquela Música/O Momento


*Mungo Jerry* _ “In The Summertime”


 Sendo este blog diferente de outros pelas razões referidas em Reviver Estórias - O Blog, “forçosamente” tenho que recorrer ao armazenamento de toda a informação contida na memória para reviver os diversos acontecimentos e episódios que a qualquer momento me façam evocar o passado no "Outro Lado do Tempo", tendo como máxima que Recordar é Viver.
E desta forma fornecer oxigénio ao blog, mesmo focando situações que eventualmente nada possam dizer à maioria de quem os lê.
Mas dizem-me a mim e naturalmente ao “Reviver Estórias”.

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 A noite já há muito caiu. Defronte do teclado do “pc” vou abrindo e-mails sobre e-mails.
O silêncio é apenas quebrado pelo som de alguma música que acompanha alguns ficheiros que em “pps” me vão chegando.
A fim de quebrar a monotonia abro por acaso um site que evoca música dos anos 60“Super Oldies Of The 60’s”.
Minimizo o ecrã e continuo a abrir e a ler o conteúdo dos e-mails.
Baixo o volume produzido nas colunas por alguns sons da música transmitida do site serem por vezes “altos” em demasia para o silêncio nocturno em que estou envolvido.
Enquanto leio ouço entre outras músicas que facilmente marcaram a juventude dos anos 60/70 o “House Of The Rising Sun”, o “Oh! Carol”, os Beache Boys e outros conjuntos e cantores da época.
Os e-mails a abrir são às dezenas e começo a pensar em os eliminar. Estou a ficar sem “pachorra” para continuar a ver e ler o conteúdo dos mesmos.
Uma outra música passa e, a exemplo das anteriores, ouço-a sem “ouvir” pois apenas quero companhia musical sem me importar bastante com o que estou a escutar.
Segue-se uma outra mas nos meus ouvidos fica “registado” o som da anterior e um click produziu-se na minha memória.
Dou por mim a dizer que já tinha ouvido aquela música de uma forma muito particular e inclusive “vejo-me” a dança-la.

 Num ápice minimizo o correio electrónico e dirijo o cursor do rato para o site. Abro-o e retrocedo para a música que “despertou” a minha atenção, que “abriu” mais uma gaveta das minhas memórias, das minhas recordações de vivências no passado vividas.
Clico sobre o título da música para de novo a reproduzir e não tenho qualquer dúvida. Aquela música tinha-a ouvido e dançado num momento vivido há muitos e muitos anos atrás.
Um turbilhão de imagens passam "visualmente" pelo meu cérebro buscando o registo do momento do som e da dança. E no imediato uma outra certeza em mim se produziu. Sei que tenho o registo em foto daquele momento em que dançava a música que hoje me “apareceu” no silêncio da noite para me fazer recordar e reviver um determinado acontecimento.
Maquinalmente olho para o relógio do ecrã do monitor.
São 02H05 da noite de hoje, Sábado, dia 29.08.2009.

 Lesto desloco-me para o local onde guardo os diversos álbuns e determinado pego aquele que eu “sei” que será nele que encontrarei a foto que regista o momento dançante daquela música.
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 ...Luanda, capital da Província de Angola. Ano de 1970.
Recentemente lançado, o “In The Summertime” alcançou de imediato forte impacto de popularidade entre a juventude luandense.
Estava-se ainda nos resquícios do Woodstock, o festival de música realizado em meados de Agosto de 1969 nos E.U.A. e vivia-se toda aquela euforia desencadeada pelo movimento hippy que também tinha chegado a Luanda/Angola.
Mas Angola andava sempre à frente em tudo e neste caso particular o Yé-Yé há muito que havia chegado, como demonstro no meu tema Festival Yé-Yé 1967.
Dentro desse contexto musical as diversas rádios sediadas em Luanda, Rádio Clube de Angola, Rádio Comercial de Angola, Voz de Luanda e todas as outras, passavam nos seus mais diversos programas o Mungo Jerry e o seu "In The Summertime", assim como era obrigatório que os “D.J.” o tocassem nas pistas de dança das discotecas, como no Yé-Yé, Pop-Cave, Quatro, Animatógrafo, Calhambeque (depois Contencioso) e outras...


 ...Dia 5 Dezembro 1970.
Na Sé de Luanda tinha-se concretizado o enlace matrimonial entre o meu amigo José Lomba e a Teresa, a sua até aí namorada...




 ...Após o cerimonial e as habituais fotos deslocamo-nos para a casa do casal, local onde iria decorrer o copo de água.
Como casamento sem dança não é casamento, há que por o gira-discos a rodar para que o ambiente fosse ainda mais alegre, mais contagiante, mais divertido.
A maioria dos presentes eram jovens e todos com boa saúde para através da dança “desgastarem” a farta boa comida que o casal tinha colocado à disposição de todos...




 ...A dado momento alguem colocou no prato do gira discos a música que estava a causar furor em vendas e audiências radiofónicas, o já famoso "In The Summertime" de Mungo Jerry.
Deixo a boa cavaqueira dos amigos, pego na que naquela tarde/noite foi o meu par mais "in" e danço-a...


o momento, a passada, a Fernanda

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 Esta é a foto que eu "soube" que tinha no album quando nele peguei.
Foto que me fez recuar no tempo do “Outro Lado do Tempo”.
O tempo do tempo desse momento foi o dia 5 de Dezembro 1970. Tinha 19 anos.

 "Regresso" à realidade presente e ouço os últimos acordes de um dos êxitos de 1968 _ “Mrs. Robinson” de Paul Simon and Garfunkel no site que me fez ouvir a música razão da publicação deste tema.

 A todos quantos comigo conviveram, ouviram e dançaram o “In The Summertime” de Mungo Jerry naquele dia 5 Dezembro 1970 e ainda estejam entre nós, um forte abraço de amizade.
Muito particularmente e especialmente ao José Lomba e Teresa.

 Saudações e Inté