quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

 

"Treme Treme" «» o Prédio


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** Harry Nilsson – Everybody’s Talking **


Mais uma estória das minhas vivências, mais um relembrar de uma página das minhas memórias.
E assim irei, paulatinamente, reconstruindo algumas fases da minha vida enquanto adolescente, enquanto jovem/adulto, enquanto em "Luanda *No Outro Lado do Tempo*.
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A partir do inicio da “chamada guerra de libertação”, passado que foi o choque inicial, Luanda/Angola começaram a desenvolver-se de forma imparável em todas as actividades.
Luanda era a cidade/capital que mais crescia e se modernizava no continente africano. Novos e actualizados serviços e equipamentos faziam com que rapidamente começasse a estar à frente de muitas cidades do velho continente (Europa), incluindo a capital do império português, na importação de tecnologias de ponta, bancárias e outras. A terra argilosa era rasgada para se construírem e asfaltarem novas e largas estradas, ruas e avenidas, começando Luanda a estender-se muito para além do perímetro habitacional que tinha em 1960.
Novos e airosos bairros faziam-na crescer, os edificios em altura surgiam como cogumelos, nomeadamente na baixa, onde bancos, companhias de seguros, hotéis e demais estruturas davam a Luanda um aspecto imponente de capital rumo ao Futuro de toda uma Angola que se queria mais próspera, mais independente do exterior, mais importante no xadrez politico/económico africano. O progresso estava à vista depois de largas dezenas de anos de estagnação.



A TAP começou a ter mais voos vindos da chamada “metrópole”, transportando uma componente humana mais técnica, com quadros cada vez mais importantes para ajudarem as diversas empresas a implementarem-se no terreno.
Nos porões dos seus aviões diversa carga era transportada, sendo um passo importante para que os equipamentos mais rapidamente fossem colocados ao serviço do desenvolvimento de Angola. Luanda e as demais capitais distritais eram portas abertas para a criação das mais variadas áreas de negócios.



A DTA também ajudou a que um maior impulso fosse dado às comunicações aéreas domésticas, revelando-se um parceiro importante nesse avançar firme na disposição e na resposta a dar aos interesses estrangeiros que se movimentavam por detrás dos chamados “movimentos de libertação”. Mais tarde, quando a DTA se transformou em TAAG, esta começou a ter voos regulares entre Angola e a “metrópole”, tornando-se num outro factor de contribuição no fluxo de transacção dos mais variados interesses nas duas rotas, Angola e Portugal.



Ao porto de Luanda chegavam navios da C.C.N. e da C.N.N. que através das ligações estabelecidas com mais regularidade entre a “metrópole” e Angola transportavam, para além dos diversos contingentes militares, milhares de portugueses que viam em Angola uma terra promissora de oportunidade na construção de um melhor futuro para si e famílias. Diverso material, matérias-primas e produtos eram também transportados por esses navios de grande tonelagem.
As transações comerciais começavam a ter números de grandeza nunca antes imaginados.



Quando Salazar proferiu a célebre frase; “rapidamente e em força para Angola” dirigida para os altos comandos do exército para a defesa daquele território de dominio português, penso que nunca ninguém terá previsto que essa frase teria o condão de fazer “despertar” interesses vários “adormecidos na metrópole”. O certo é que a frase estendeu-se a toda uma dinâmica empresarial, então quase inexistente, e a todo o povo português, tendo-se verificado um autêntico êxodo civil rumo a Angola.
A genuína Coca Cola entrou em Luanda no ano de 1964/65 sem qualquer restrição. O Take Away era uma realidade na Pastelaria Versailles, assim como Luanda teve o primeiro Hiper Mercado de todo o Portugal, o tão conhecido Jumbo, sito na estrada de Catete.



O lançamento do primeiro Cartão Visa em todo o território português foi feito em 1971/2 pelo BPSM em Luanda. O produto era baseado no genérico do filme "Trinitá–Cowboy Insolente".
Em 1967 foi inaugurado na marginal o prédio de 26 andares, o maior de todo o Portugal, onde se situou a sede do BCA. E aqui mais uma vez a novidade das modernas e funcionais instalações, complementadas com novas técnicas e tecnologias bancárias, entre as quais a existência do “auto-banco”, serviço completamente inovador em toda a banca portuguesa. O BCA tornou-se rapidamente o ex-líbris de Luanda/Angola e de toda a África Ocidental.



É neste cenário de constante crescimento que também a vida nocturna começa a multiplicar-se com a oferta de mais boites, casas de fados, bares americanos, casas de espectáculos como o Tamar, o Maxime, a Gruta e outras.



Luanda/Angola continuava a oferecer oportunidades a quem nela quisesse investir. Assim foi construído, em altura, mais um moderno edifício no Largo Infante D. Henrique [Largo do Baleizão] que, pouco depois de ocupado, começou a ser conhecido pelo prédio do “Treme Treme”. A razão dessa denominação tinha a ver com a utilização que era dada a alguns apartamentos, por estarem habitados por “profissionais do sexo”. Quem pretendesse alguma discrição e “qualidade”, diziam, sabia que nalguns apartamentos daquele prédio os podia encontrar. Devido a essa "actividade" o prédio começou a ser conhecido por "Treme Treme", ficando dessa forma referenciado para qualquer informação a prestar, mesmo que não para essa “área de serviços”, por lá existirem também bastantes escritórios de empresas.
Em relação a esse prédio ficou por esclarecer o porquê da morte de uma "profissional" nele ocorrido em 1968/69. Oficialmente tratou-se de um suicídio ("atirou-se de um dos andares"), mas “sabia-se” que tinha sido um assassinato, só que metia gente “graúda” e com essa versão ficou o caso encerrado.



Luanda nocturna era uma cidade cheia de vida. Os teatros, os cinemas, os restaurantes, cafés e esplanadas “fervilhavam” de gente, de familias.
Muitos faziam desses momentos a preparação para mais uma noitada nas boites, dancings, bares americanos, clubes recreativos, etc., etc.. O Café Baia, virado para a marginal e sito no edifício de traça antiga encostado ao prédio “Treme Treme" era também um ponto de referência.
A cidade oferecia um espectáculo grátis e deslumbrante com as luzes da Marginal e as dos seus reclamos multicolores, que num piscar constante se reflectiam como um arco-íris sobre as águas calmas da baía, enquanto no alto, e em tons de amarelo iluminada, a Fortaleza de S. Miguel vigiava a baia, protegia a cidade.



Os automóveis passeavam-se como pirilampos e muitos deslocavam-se para a ilha, onde as marisqueiras e bares aguardavam com as suas lagostas, camarões, lagostins, sapateiras, outros crustáceos e moluscos a chegada da clientela noctívaga, e não só.
Luanda dormia acordada, ou seja, Luanda era uma cidade que não dormia.

É com todo este cenário de crescimento e de deslumbramento que dou inicio à minha estória, a este meu rememorar de uma situação vivida.
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Alguém em conversa me tinha dito que no “Treme Treme” funcionava, num dos estabelecimentos do r/c, um bar particularmente “especial”, pois seria frequentado por pessoas de comportamento sexual diferenciado do dito normal. Que era uma espécie de bar/clube de homens, cuja entrada, para além de discreta, era bastante restritiva.
Tinha eu na altura 20 anos, portanto em 1971. Na data tirava a especialidade no Agrupamento de Transmissões de Angola e sentia-me mais homem, mais forte para enfrentar situações diferentes, de outra índole, ou seja, mais confiante nas minhas possibilidades físicas, já que as intelectuais estavam e sempre estiveram em forma.

** Como por certo já leram em algum dos temas anteriores e por certo irão ler em outros futuros, a curiosidade de observar, de analisar e avaliar os diversos comportamentos ou de estar por dentro de algumas situações faziam parte da minha forma de estar, do meu crescimento da vida para a vida. **

Movido por essa constante observação das coisas decidi verificar da verdade da informação recebida e "sentir" o pulsar do ambiente desse novo, para mim, “comportamento” humano. Apesar de novo já tinha "bastantes quilómetros de estrada" e sabia que neste tipo de incursões totalmente desconhecidas seria um erro, ou temeridade a mais, ir-se só.
Assim conversei com meu irmão Mário, disse-lhe dos meus propósitos de não pretender ir sozinho e que gostaria que ele me acompanhasse, caso estivesse disponível para isso. Concordou e prontificou-se em acompanhar-me quando fosse o dia destinado para esse fim.
No dia aprazado jantamos, pedi as chaves do Chevrolet Belair a meu pai que, “resmungando”, lá mas cedeu.

** Como também já referi num tema anterior, só tive o meu próprio automovel após ter terminado a vida militar e ter adquirido a minha “independência”, pois antes nunca tive necessidade de o ter.**

Saímos nas calmas de casa (Rua do Lobito), deslizamos até à Rua do Quicombo, entramos na Rua António Enes, descemos o Eixo Viário e como tinhamos bastante tempo fomos até à ponta da ilha. Paramos, conversamos e no regresso demos uma olhadela no Restaurante Mandarim para vermos como estava o ambiente.



Estacionamos na Marginal, entramos no Café Baia para bebermos um saboroso café de Angola e extasiarmo-nos com a beleza da baía e o colorido dos diversos tons de luzes nela reflectidos. Bebido o café começamos a "magicar" como entraríamos no bar/clube, por ser de entrada restrita. Como não tínhamos solução encolhemos os ombros e decidimos aguardar o que poderia acontecer. Se abrissem muito bem, se não abrissem muito bem na mesma. Só que a minha "missão" não ficaria cumprida.



Os ponteiros do relógio pareciam ter parado no tempo infindável. O Café Baia estava para fechar e os poucos clientes preparavam-se para sair. Aguentamos até onde foi possível e não tivemos outra alternativa que não fosse também sairmos. Com passo lento passamos pelo Bar, contornamos o “Treme Treme” e fomos até ao prédio do Alfredo F. Matos



ver os modelos dos carros expostos, apenas para “fazer passar o tempo”. Pouco depois das 24 horas premi com dois toques rápidos a campainha desse bar de porta fechada. Já tinha visto esta cena do tocar rápido em alguns filmes e era assim que neles funcionava. A porta entreabriu-se e surgiu o rosto de alguém que pelo estilo deveria ser o porteiro. Ao entrar comprovamos que sim, que era. Mirou-nos rapidamente umas duas vezes de alto a baixo, creio tê-lo visto franzir a testa de estranheza e, para nossa surpresa, fez-nos entrar sem ter feito qualquer pergunta.
Uma luz de vermelho mortiço, provocando penumbras estratégicas, acolheu de imediato o nosso campo visual. Descemos uns dois pequenos degraus e o mundo “diferente” apareceu.
Bastante fumo de tabaco tornava o ambiente denso e quase irrespirável. Alguns rostos viraram-se para nós que tínhamos ficado momentaneamente sem "vontade" de avançar. Controlamos a respiração e avançamos até ao balcão.
O balcão situava-se do lado direito da entrada e tinha um grande espelho como fundo.
Antes que o barman perguntasse o que pretendiamos beber encostamo-nos de costas para o balcão e procuramos dar a entender que estávamos à procura de alguém. Com o olhar consegui(mos) romper a penumbra dos recantos que ficavam para além da luz mortiça e vi(mos) comportamentos próprios daquele tipo de natureza humana.
O “Treme Treme” até no subsolo fazia jus ao nome pelo qual era conhecido na superficie.
Entretanto alguns olhares lânguidos e conspurcados pela lascívia já disputavam os nossos olhares, os nossos rostos. Como o ambiente estava a ficar demasiado "pesado" para nós, dei por terminada a "missão" que me tinha levado até àquele bar. Com o olhar transmiti essa intenção a Marius70, que também já tinha "pressentido" que havia chegado o momento de nos retirarmos.
Viramo-nos lentamente para o barman, encolhemos os ombros dando-lhe a entender que não estava quem pensávamos que pudesse estar e com andar descontraido dirigimo-nos para a saída.

Saidos, ficamos um pouco no exterior a conversar, bem perto da porta do bar para o porteiro ouvir, caso estivesse de "orelha colada", e fingimos da decepção de não termos encontrado o [nome inventado] etc., etc.
Com este procedimento queriamos fazer crer que entramos com uma finalidade, com um objectivo, e não como intrusos, como "diferentes dos diferentes".
No por vezes complicado mundo da noite as coisas que não são têm por vezes parecer que são.



Com o ar da noite a refrescar-nos e aliviada a tensão existente caminhamos calmamente e lentamente para o Chevrolet Belair. Já dentro e a caminho do Bairro de S.Paulo, fizemos uma avaliação do que cada um de nós tinha observado e da "aventura" vivida.
Chegamos depois à conclusão de que aquela teria sido porventura a primeira e única incursão a um mundo com aquele género humano de ambiente e comportamento.

Tinhamos estado num "Bar Gay".
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Para meu irmão Mário que ao acompanhar-me naquela noite daquele ano longinquo contribuiu para que eu pudesse concretizar a observação de novos comportamentos, um Grande Abraço de Amizade.

Saudações e Inté



Comments:
Gostei. um abraço leo
 
Olá Mano

Este tema para além da estória do edifício serve também pra perceber o grande desenvolvimento e o quanto Luanda ficou avançada relativamente ao Continente em várias frentes e, tanto no Hiper Jumbo, como nos cartões, para além de já se beber Coca-Cola ainda o que caiu da cadeira estava em funções. O que proibiu em Portugal (dizia ele que se aquilo se chamava Coca era porque tinha cocaína, "esperto" o ditador) não o era em Angola e assim vivíamos longe do céu cinzento sobre o astro mudo como cantava Zeca.

Sobre o treme-treme, está tudo dito e muitos anos mais tarde já em Portugal vivi algo parecido e lembrava-me dessa história. É que quando ia para o emprego passava perto de uma gaiola de malucas e muitas "delas" tinham um buço bem espesso sobre o nariz.

:)

Abraços!
 
Bem, eu nunca imaginei que nesse tempo houvesse pessoas com tendências fora do normal, no entanto eu habituei-me a compreender que ninguém é igual a ninguém, e a forma de utilizar os gostos variam da mesma forma que a nossa sociedade se tornou indiferente ao resultado dessas tendências e o resultado foi o que chamamos a SIDA foi o preço do prazer (se isso se possa chamar). Um abraço leo
 
Lá fiz eu uma viagem por Luanda....que como sabem...conhecia como a s minhas mãos..hoje olha para ela....nada me diz...nada daquilo é do nosso tempo e o que é...está a cair.. (a minha casa não..até ver)..O Luís Esticadinho...a Maria da Fonte....e todos so outors estão presos na Fortaleza de Miguel....os cafés...os nosso cafés..restaurantes....nada existe...tudo é tão diferente..tb passaram-se 35 anos..e se lá estivessemos era a mesma coisa...

Mas...Ai que Saudades eu tenho de ti....Angola
 
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