domingo, 27 de junho de 2010

 

Luanda // Nova Lisboa [ IV/IV ]


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LOUCOS ATÉ AO FIM

O tempo entretanto ia passando e a hora de irmos ao hotel buscar os sacos aproximava-se. Ao chegarmos e para a loucura ficar completa do que é que nos lembramos. De pura e simplesmente lá almoçarmos. Não tínhamos ficado verdadeiramente "traumatizados” com o que tinhamos pago pelos quartos. Queriamos ver e sentir até onde nos levaria a "panca". Era a perfeita "loucura total".
A sala de refeições estava bem composta de hóspedes. Entramos, veio ter connosco o chefe de sala, perguntou se estávamos hospedados e encaminhou-nos para uma mesa redonda, como todas. A seguir veio um empregado com a lista. Ao mesmo tempo perguntou o que íamos beber ...vinho… dissemos e uma Coca Cola, e vimo-lo a fazer um sinal para um outro empregado.
Devíamos estar mesmo “apanhados” do clima. Mais de metade do dinheiro gasto nos quartos, a ficarmos à "rasca" sem sabermos para o que dava e até quando chegaria o que sobrava a cada um para "sobreviver" nos quarteis e mesmo assim estávamos na sala de almoço de um hotel a escolhermos à lista e a pedirmos vinho. Só de loucos. Nova Lisboa e o frio já estavam a causar efeitos na nossa inteligência. Era a "cacimbada" a funcionar e ainda éramos civis.



Olhamos para os preços na ementa e só deu para rir. Aqueles preços eram um autêntico atentado às nossas pobres e desfalcadas carteiras. Mais uma vez conferenciamos para vermos o "kumbu" que tinhamos e decidimos pedir dois pratos da vasta ementa que, pelo nome, nos pareceu ser os que dariam para melhor repartir pelos quatro. O outro empregado trás a carta de vinhos e aqui foi o pagode total. Aquilo não era preço para vinho mas talvez para comprar ouro. Enquanto ríamos com a situação lá pedimos a comida e vimos o empregado a querer levantar os outros dois pratos. Dissemos para estar quieto pois todos íamos almoçar.
Como riamos à vontade verificamos que alguma clientela começou a olhar-nos com ar de reprovação, com algum desdém [esta leitura é minha], abanando a cabeça e depois enviarem o olhar para o chefe de sala. Este, de forma discreta mas querendo ser visto, veio ter connosco dizendo-nos que os outros clientes estavam a sentir-se incomodados com a nossa postura, recomendando para baixarmos o tom dos risos e comportarmo-nos de acordo com o local onde nos encontrávamos.



Parvos com aquela intervenção olhamos para o indivíduo, serenamos um pouco, ele vira costas com ar de “dever cumprido”, olhamos uns para os outros e foi um desatar a rir com o ridiculo da situação. Naquele momento alguém foi salvo pelo “gongo”, ou ele [chefe] ou nós, pois chegou o empregado com a garrafa de vinho, despejou um pouco num copo a fim de um de nós o provar. O Henrique emborcou o conteúdo [aquilo não tinha nada] e com ar de entendido abanou com a cabeça em sinal de concordância. O empregado começou a “sujar” o meu copo e o do Carlos, já que para o Fernando era a Coca Cola, e de novo o do Henrique. Quando o vimos a retirar-se com a garrafa mais cheia que vazia e os nossos copos mais vazios que cheios, um de nós [não me lembro quem] meteu a mão à garrafa e disse que ela ficava ali, na mesa. O empregado sem saber o que fazer olhou para o chefe e vi este com o olhar a “dizer” para se retirar. Com mais esta cena fomos de novo alvo dos olhares dos presentes, que pareciam mais interessados em nós que na comida ou bebida que tinham à sua frente.
Chegou o carrinho da comida, o empregado levanta a tampa dos recipientes e começa a servir-nos. Um niquinho disto, um niquito daquilo e eu a pressentir que íamos ter outro comportamento nada "digno" para aquele ambiente. E sucedeu o que previ que acontecesse. Quando acabou de deixar “alguma coisa” em cada prato, e depois de tapar os recipientes, o empregado preparou-se para levar o carrinho. Então nós íamos pagar uma fortuna, ele deixava uma amostra nos pratos e levava quase toda a comida !!??



Deitou-se a mão ao carro ao mesmo tempo que dizíamos que não saia do pé de nós, a exemplo do vinho. O empregado tentou explicar que continuaríamos a ter a comida à disposição, mas era procedimento o carrinho sair do pé da mesa dos clientes e depois ele vinha de novo servir-nos, caso o chamássemos para esse efeito. Bem tentou explicar, mas nós não estávamos para aí virados. Dissemos não concordar e repetimos que o carrinho dali não saía. E mais, que nós nos serviríamos pois a comida era nossa e não queríamos saber de mais nada. E o ESCANDALO continuava para aquela “snob” clientela que cada vez olhava mais espantada !!! para nós. Faço lá ideia do que nos terão chamado, mas não andarei longe de ..."são meninos da capital, filhos de papás endinheirados, vêm para aqui [hotel] mas não têm modos, não sabem estar e não têm nenhuma educação. São uns selvagens", etc., etc..
Levantei-me, puxei o carrinho para o meu lado e comecei a encher os pratos. Do chefe de sala nem sombra. Por certo pensou que não valia a pena incomodar-se e deve ter saído antes que algum daqueles senhores ou madames o chamasse. Não havia nada a fazer em relação àqueles [nós] “incivilizados”, terá talvez pensado.

Acabada a refeição pedimos a conta e pagamos. Para continuarmos a chatear fizemos o máximo de barulho possível ao levantarmo-nos, arrastando as cadeiras e falando alto. Dirigimo-nos aos quartos, pegamos os sacos, saímos, colocamo-los no carro e fomos a um café. Tenho cá para mim que se o hotel tivesse uma lista negra os nossos nomes nela iriam constar. E ainda não tinham visto os quartos :)).
Demos mais umas voltas para queimar o tempo até ao último minuto da hora em que nos teríamos que apresentar. E ela chegou.
Passavam das 18H00 quando franqueei a porta do Regimento de Infantaria 21, em Nova Lisboa, no dia 31 de Janeiro de 1971.



O jovem civil das praias de Luanda tinha ficado à porta da unidade.
No lado de dentro surgiu o jovem recruta que tinha sido ALISTADO para todo o serviço militar.

Saudações e Inté



Comments:
Neste teu último tema sobre a vossa aventura, lá teria de se ser louca até ao fim.

:))

Comer no Ruacaná era como ir ao Casino. O pouco dinheiro que se leva fica lá.

:))

Essa cena do servir e levar passou-se também com os nossos pais aquando o meu juramento de bandeira.

Não foi no Ruacaná mas no "Restaurante Koringas", frente ao Jardim referido, que era o meu Restaurante predilecto sempre que comia na cidade.

Feito os pedidos, o criado serve-nos e começa a levar o carrinho. O pai como já tinha visto nas outras mesas que assim era, não esteve pelos ajustes, há que ficar ali o carro pois o que havia no prato era pouco para o que no fim se teria que pagar.

:))

Foram peripécias hilariantes o que faz com que estas estórias tenham sempre motivos de interesse pois se não houvesse nada que fosse interessante, logo as situações seriam criadas para que as mesmas acontecessem.

:))

Estive a ler muitos temas teus anteriores, e não há dúvida que desde as entradas a "pato" nos casamentos e a nossa vivência na cidade de Luanda não se coadunava com a forma de ser e estar do pessoal de Nova Lisboa. Talvez o clima tivesse a sua quota-parte, mas isso não explica tudo. Éramos feitos de outra "loiça".

Mas gostei de lá estar, e a adaptação era só uma questão de tempo, a EDAL pensou abrir uma delegação em Nova Lisboa e eu ofereci-me para lá ficar.

Abraços mano e Parabéns pela recordação.
 
Olá mano,

loucos, loucos, até não haver tempo para mais loucuras .:-))).
Agora, ao recordar tudo isso, creio que fomos "salvos" por termos que nos apresentar nos aquartelamentos. De outro modo ainda se venderia o Toyota para continuarmos a pagar outras loucuras.

Gozei bastante em ter revivido toda essa demanda ""Luanda/Nova Lisboa"" e transcrevê-la para o blog. Situações muito próprias de jovens desinibidos, kaluandas vividos de outras cenas e outras situações em nada semelhantes a estas que vivemos em N.Lisboa, mas que nos deram "veterania" para encararmos estas e outras andanças na forma como as vivemos.

Agora só terei que encerrar o capitulo Nova Lisboa com um tema dedicado ao tempo de recruta. E já está em formatação na massa cinzenta .:-)))

Um abração
 
Pois Leo, só podia terminar como começou, nesse tempo, havia algo na juventude em querer saber até que ponto se podia chegar, não importando o que pensassem, como pensassem. A tua geração, foi o princípio das grandes mudanças das mentalidades naquele tempo. Conforme eu ia lendo, comecei a imaginar a cena, era assim nesse tempo nos hotéis chiques, era. Ainda continua da mesma forma neste tempo. Um abraço Edu
 
Estás certo Edu no que referes à nossa forma de estar. Lá queriamos saber dos conceitos e preconceitos, do que pensassem ou não. Queriamos era, como bem o dizes, "chocar" com o certinho, o tradicional e algum snobismo instalado. Era uma juventude irreverente, da liamba (nunca fumei), da boca de sino, da pata de elefante, das camisas mil flores, dos cabelos compridos, do sexo livre sem tabus. Queriamos derrubar barreiras e construir o nosso mundo à n/imagem e não à imagem dos nossos progenitores ou familias, reconhecendo no entanto os padrões morais, educacionais e civilizacionais com que fomos criados. A "confrontação" nos procedimentos e comportamentos que leste nesta última parte era já a tal mudança de mentalidade e atitude que se fazia sentir naquela nossa geração.

Apreciei o teu reaparecimento neste espaço de todos nós.

Um abraço
 
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