sexta-feira, 8 de outubro de 2010

 

Amor Perdido «» [ a Confirmação ]


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** Sharif Dean – Do You Love Me **


Mas no dia seguinte, como estava em casa, vi-a de novo quando fui ao quintal. Ou seja, conscientemente eu queria ir ao quintal para ver se a via. E lá estava ela, como se também estivesse a aguardar que eu aparecesse. Sorri, ela sorriu e começou o “galopar” do coração. Coisa estranha para mim pois nunca me tinha acontecido aquela forma de batida e já algumas tinham por ele passado. E para mais nem sequer sabia como era, se era miúda ou mulher, se baixa ou alta e outros pormenores físicos, pois eu continuava a estar no quintal e ela no 1º andar, tal como no entardecer do dia anterior. Creio ter ficado “atarantado”, sem saber o que fazer ou dizer, mas lá consegui por gestos “perguntar-lhe” se não descia. Queria vê-la, saber se era tão nova quanto minha irmã me tinha dito, como era e compreender qual a razão do estado de ansiedade com que tinha ficado. Ficou um pouco hesitante, pelo menos pareceu-me, desapareceu mas voltou logo de seguida. Também por gestos disse-me, mostrando um saco, que ia descer para ir à padaria e de novo desapareceu.
Devo ter “galgado” os degraus e “trespassado” as paredes ao ponto de minha mãe me ter perguntado o que me tinha dado, que “doideira” era aquela, pois num momento estava sossegado e num repente parecia um furacão.
Saí pela porta da frente e vi-a pela primeira vez, embora já de costas.
E senti que ela era a predestinada.



O “toque” do dia anterior, o “galopar” do coração momentos antes, o estar a vê-la a afastar-se e eu a contemplá-la como que paralisado deram-me a certeza. Apreço o passo. Ela olha para trás, vê-me e com o olhar faz-me um sinal. Olho para trás e vejo na varanda da frente a D. Lurdes, sua tia e protectora. Mas eu lá queria saber da tia ou de quem quer que fosse. O que naquele momento confirmei foi o magnetismo que entre nós já se tinha estabelecido no entardecer raiado do dia anterior. Não era possível duas pessoas que nunca se tinham visto comportarem-se de forma tão empática, tão emotiva, tão demasiado cúmplice. Olhei-a, agora de frente e da cabeça aos pés. Olhos acastanhados com luz do crepúsculo do amanhecer renovado, cabelos pelos ombros caídos como se um mar de sargaço fosse, lábios de morango para mim sorrindo, olhar de olhos límpidos de menina observando-me com serenidade, pele morena perfumada como as belas rosas de porcelana e dona de um sorriso que não cabia no tempo.



Sorri-lhe, continuamos e de forma impulsiva peguei sua mão. Senti que se retraiu e sem muito forçar procurou libertá-la da minha. Era uma mão quente, quente como as planícies da terra avermelhada no ocaso do Sol. Suavemente, mas com a firmeza da garra de leão a agarrar a presa, apertei-a mais. Olhou-me e deixou de fazer pressão. Foi a sua reacção natural face ao contacto inesperado. Mais sorrindo e contemplando-nos que conversando, fomos e viemos da padaria. Soube seu nome, disse-lhe o meu e fiquei a saber que ela já o sabia, pois a exemplo de mim também ela tinha perguntado à tia quem eu era. Também lhe disse que sabia o dela. O que não gostei foi de saber o que a tia lhe tinha dito de mim. Coisas de tia que tinha à sua guarda uma sobrinha com aquela beleza selvagem de apenas 17 anos.
Antes de entrarmos no perímetro visual das residências onde vivíamos retirou a mão da minha pois não queria que a tia a visse assim. Aceitei pois não pretendia comprometê-la logo no primeiro dia de encontro. E lá estava a D. Lurdes na varanda. Deixei-a à porta de casa, cumprimentei e conversei um pouco debaixo para cima com a tia e fui para casa. Mal entrado e levo um “sermão” de minha mãe ...agora percebi a tua correria. Chegaste ontem e já estás a meter-te com a rapariga. Deixa-a sossegada pois a tia já esteve a conversar comigo e não gostou nada do que viu...
Como eu sabia que de errado nada tinha feito, assim como sabia da “fama” que me atribuíam, não deixei que a conversa avançasse. Mas estava com um problema e tinha que o resolver rapidamente. Assim à hora do almoço pergunto a meu irmão Alfa se está com algum interesse na (.....) pois a Faty tinha-me dito que sim e eu queria saber. Ficou surpreso com a pergunta tendo-me dito que não estava interessado e devia ser confusão da mana. Que se eu quisesse podia “avançar” à vontade.

Assim, eu que me tinha “desenfiado” de Zau-Évua para mais uns dias gloriosos em Luanda vi-me envolvido no caso mais rápido e amoroso da minha vida. Nunca antes, nem depois, alguma vez isso me tinha acontecido. Estava a ser uma história de amor totalmente incompreensível para mim. Aquele não era eu. Passados uns dias verifico que “falhava” alguma coisa, pois não estava a controlar a situação da mesma forma que as anteriores. O que simplesmente não queria era admitir que o que me estava a acontecer era totalmente diferente de todas as outras vezes.
Ela não podia sair e eu ficava o dia a aguardar que ela saísse. Quando conseguíamos conversar logo aparecia a tia ou os primos, assim como os vizinhos que pareciam estar a “gozar” com o panorama, ou seja, comigo. Por vezes ao fim da tarde conversávamos encostados à porta de entrada mas devido aos sentidos apurados “sentia” que na parte de dentro a tia tinha descido e que estava do outro lado a tentar perceber, talvez, que género de conversa eu estaria a ter com a sobrinha, preocupada por certo com a "famosa fama" que me precedia.

** rua onde tudo começou **
** em fundo mana Faty **


Aquela situação não podia continuar. Os dias passavam, Luanda estava a deixar de ser “minha”, só conversar não era comigo e aproximava-se rapidamente o dia de partida para Zau-Évua. Algo tinha que mudar. E assim perguntei-lhe o que é que ela pensava de nós. Disse o que pensava, o que sentia, o quanto gostava de estar comigo, de conversar, de tudo enfim. De seguida perguntei se a tia falava com ela sobre nós, respondendo que sim, mas dizendo que éramos amigos. Fiquei surpreso com a resposta, mas compreendi. Mas, acrescentou, a tia tinha-lhe dito que não gostava de a ver comigo e que se eu pretendesse alguma coisa para além de conversar teria que primeiro ter uma conversa com ela. E foi assim que aconteceu o pedido de namoro. Pura e simplesmente estava “apanhado” e já não raciocinava com lucidez.
Pela primeira vez eu ia pedir a alguém que me deixasse "andar" com alguém.
Eu, que nunca tinha namorado, mas sim andado, ia fazer aquele “papel de atrasado mental”. Foi a primeira e única vez que oficialmente "namorei".
Disse-lhe que queria falar com a tia, se estivesse de acordo. Toda ela foi alegria, todo o seu ser sorriu e mais linda a meus olhos ficou. Subiu apressadamente as escadas, ouvi-a a falar com a tia que me deu permissão para subir. Continuava a não acreditar no que estava a fazer mas ela era a "doce culpada”.

Bom, lá falei com a D. Lurdes, que aproveitou para me querer dar um sermão (já éramos vizinhos há uns anos) sobre quais as minhas reais intenções quanto à sobrinha, que ela era uma menina e eu um homem feito, que a “fama” que tinha não era boa para ela e coisas do género. Mas enfim, atendendo a que a sobrinha dizia gostar de mim, por causa do “falatório” da vizinhança e por eu daí a uns dias já não estar, autorizava o namoro. Mas eu que não pensasse em sair com ela à noite, nada de encontros a sós e toda aquela "conversa" do costume quando os namoros são “formalizados”. Descemos e vinha mais que leão enfurecido por três razões; a primeira era a história da “fama” que francamente já me aborrecia, pois nada havia que justificasse tal rotulagem. Era ridículo esse preconceito existente a meu respeito. Só faltavam dizer ...filhas, sobrinhas, netas, e sei lá mais o quê, resguardai-vos pois chegou o “predador"...
A segunda foi a insensibilidade com que disse que autorizava pela simples razão de também saber que daí a uns dias eu já estaria fora de “circulação”. Aquilo não podia ter sido dito. O meu amor-próprio estava ferido com aquela ligeireza de análise. Não me estava realmente a reconhecer, pois noutra situação ter-me-ia de imediato retirado e a sobrinha tinha ido à vida.
Por fim a terceira era a de ...””nada de saídas, nada de encontros a sós, nada de eu procurar "avançar", etc., etc””... Então se era para nada de nada porque autorizou!!.
Chegou o dia de partir, mas sabia e sentia que muito de mim ficava nela. Assim como sabia que muito dela ia comigo. O regresso a Zau-Évua foi terrível, foi emocionalmente desgastante. Ainda ia a caminho e já estava a pensar na próxima vinda.

** outra perspectiva de Zau-Évua **


O mês de Outubro foi demasiado longo para mim e talvez para ela. Tinha-lhe dito na véspera da partida que daí a quinze dias estaríamos de novo juntos e não consegui cumprir esse nosso desejo. Nos dois M.V.L. seguintes “desenfiaram-se” outros companheiros e dentro da ética e compromissos existentes, as regras eram para se cumprirem. Hoje uns, amanhã outros. O M.V.L. realizava-se de quinze em quinze dias e no mês de Novembro queria ser eu a ir, desse por onde desse.
A separação era demasiada. Sentia já uma saudade imensa do pouco tempo que com ela tinha estado. O sangue queimava os canais por onde circulava, a febre apossava-se do meu corpo que de frio tremia. As noites já não tinham luar, nem as estrelas brilhavam. Sentia como nunca senti a frescura da noite e o calor que queimava nas horas quentes. Sobre o capim ondulante pela brisa do entardecer vislumbrava-a com os longos cabelos soltos ao vento e no silêncio do crepúsculo do ocaso revia o entardecer de quando a tinha pela primeira vez visto.



Via o tempo, o tempo das nossas vidas que se cruzou, e que me fez compreender que existia um outro tempo que passava sob a forma de uma Lágrima que do céu caia no meio da savana e tremule se afastava, percorrendo um longo caminho que terminava nos pés dela, comigo, a seu lado.
E Novembro chegou e o M.V.L. passou e eu nele ia. Mas as coisas não estavam a ser como eu queria que fossem. Estava oficialmente em serviço e tinha que me apresentar no R.I.20 a fim de preparar junto do Grafanil a obtenção de um novo aparelho para as transmissões do aquartelamento em Tomboco, tarefa de instalação que ia ser desempenhada por mim, a exemplo do que tinha acontecido em Ambriz. E não tinha autorização para ausentar-me do R.I.20, pois a guia de marcha não o permitia.
Então eu estava em Luanda e não saia do regimento?! Ia ficar o fim-de-semana “aprisionado” no aquartelamento e não ia poder estar com quem eu desejava ardentemente estar?! Era o que se haveria de ver. Lá é que não ficaria, nem que tivesse que fazer asneirada. E dentro destes pensamentos engendrei uma ideia bastante “doentia”, que era a de ficar doente, dar baixa na enfermaria, deixando assim de responder às chamadas e com alguma habilidade e colaboração dos enfermeiros arranjaria um esquema para me “desenfiar”.
Se o pensei, assim o fiz. Falei com os dois enfermeiros que iam estar de serviço no fim-de-semana, contei-lhes uma “estória” de fazer chorar as pedras da calçada, mostraram-se compreensivos e foram solidários. Dei baixa e fiquei na enfermaria. Inventou-se uma febre qualquer para constar na ficha médica, ficha essa que iria ser vista pelo sargento enfermeiro. Tudo parecia bem preparado e às 15 horas do dia 11 de Novembro de 1972 (Sábado) “desapareci” da enfermaria, rumo a casa.

...No mesmo dia 11 de Novembro, mas de 1975, deu-se a independência de Angola...

[ continua ]



Comments:
Sim, Leo continua,não perco uma,davas para escrever romances. Abraço Edu
 
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