domingo, 6 de junho de 2010

 

Luanda // Nova Lisboa [ I/IV ]


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** Fire Inc. - Nowhere Fast **


Este tema tem a pretensão de descrever alguns dos momentos antecedentes e os que se seguiram desde a minha partida de Luanda até à chegada às portas do R.I.21, em Nova Lisboa, no já longínquo ano de 1971. É um relato em que procuro retratar algumas peripécias encontradas pelo caminho, quando em companhia de mais três amigos decidimos percorrer essa estrada até então desconhecida. A finalidade do tema é, a exemplo de todos quantos escrevo, o de transmitir as particularidades dessas minhas vivências, dos meus sentires, das minhas sensibilidades para os vários momentos das etapas da minha vida no “Outro Lado do Tempo”.

Devido à sua extensão o tema será apresentado em quatro partes. Assim e em cada Domingo do mês em curso transcreverei para o "Reviver Estórias" uma dessas partes. O título será sempre Luanda // Nova Lisboa, de [I] a [IV].
Dedico o tema a todos quantos como eu efectuaram iguais percursos, embora com as características dos seus próprios momentos, e muito particularmente a esses meus Amigos do Bairro de S.Paulo; Henrique, Fernando e Carlos, companheiros da aventura.
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A PARTIDA DE LUANDA


Luanda. Ano de 1970. 27 Julho. Resultado da inspecção militar feita no GAC na Avª Norton de Matos … ALISTADO para todo o serviço militar.

** GAC – Avª. Norton de Matos **


Luanda. Bairro de S.Paulo, Janeiro 1971. Em conversas com os amigos Carlos, Fernando e Henrique, estes dois últimos filhos dos proprietários da bem conhecida Foto Beleza, ficamos a saber que iríamos integrar o primeiro turno de Instrução Básica Militar, tendo como data de incorporação o dia 31 de Janeiro [Domingo], desse ano. Destino, Nova Lisboa, R.I.21 e E.A.M.A.
Com a guia de apresentação para ser entregue no R.I. 21 e após ter ouvido outro tipo de dissertações sobre a disciplina militar [Deveres e Obrigações] … não me lembro de ter ouvido “Direitos”, comecei a preparar-me para essa nova etapa na vida.
Em relação ao meio de transporte ele foi rapidamente encontrado. Iríamos no Toyota Celica do Henrique.

** Este não é o original. Apenas referência do modelo **


O passo seguinte foi sobre o que deveríamos levar em termos de roupa, calçado, produtos de higiene, etc., etc. Outro aspecto era o de combinarmos quando iríamos; que tipo de estrada encontraríamos; aconselharmo-nos em que localidade(s) deveríamos parar para reabastecimento; quantos quilómetros eram de Luanda a Nova Lisboa e outros aspectos relacionados com sabermos se o Celica “aguentaria” a viagem.

Informações obtidas e compiladas:
• A roupa e calçado que levássemos no corpo e mais um outro conjunto de muda, pois só teríamos tempo para usar a roupa do exército; a farda de trabalho, o camuflado e a farda de passeio. A roupa e calçado civil pouco uso iriam ter. Uns chinelos a mais para o banho era aconselhável e não ocupava espaço.
• Produtos de higiene apenas os essenciais e os de uso pessoal, caso escova de dentes e pente, pois os demais, lâminas e cremes barbear, desodorizantes, pasta dentífrica, sabonetes e outros do género podíamos comprar no quartel quando se acabassem os que levássemos, e eram baratos.
• De alimentos para levarmos umas bolachas e biscoitos secos, uns enlatados apenas para as primeiras impressões e não muito mais, pois o exército dava alimentação, havia cantina e sempre evitaríamos que os “amigos do alheio” fizessem desaparecer o que de melhor houvesse.
• Que a estrada era totalmente asfaltada e a distância rondaria os 700 quilómetros. Conselho principal foi o de não nos entusiasmarmos com a velocidade já que a estrada era propícia a esse tipo de “vertigem” pois dava para “abrir”, era larga, de boa condução, sem obstáculos e sem fim à vista. Que devido ao conjunto desses factores muitos nela tinham perdido a vida, “embriagados” pelo entusiasmo da velocidade. Para pararmos quando quem conduzisse sentisse fadiga e substituirmo-nos na condução.
• Que regra geral parava-se em Santa Comba para reabastecimento, desentorpecimento das pernas e comer-se alguma coisa, mas que tudo dependeria da hora que saíssemos de Luanda. Mas pelo caminho encontraríamos uma ou outra localidade, caso quiséssemos parar antes.

Face aos elementos obtidos cada um ficou ciente do que deveria levar. A questão que sobrava era decidirmos quando iríamos e hora de saída. A conversa decisiva sobre este último aspecto aconteceu no Sábado ou Domingo da semana anterior. Decisão, sairíamos no Sábado, dia 30 de Janeiro de 1971. E esse Sábado chegou. As despedidas, sacos para dentro da bagageira, uma volta pelas ruas do bairro com o Celica a “roncar” de forma expressiva [tínhamos que dar nas vistas] e eis-nos a caminho do desconhecido. Seriam umas 08h30/09H00. No dia anterior, Sexta-feira, tínhamos concordado em sair cedo e almoçarmos numa localidade qualquer do caminho.
Metemos à Paiva Couceiro, viramos para a D. João II e entramos na Estrada de Catete.
Antes da estrada de ligação a Viana visualizamos a estrutura da Filda,situada no lado esquerdo,

** aspecto da FILDA **


o cemitério novo no lado direito e o monumento ao motorista bem no centro da estrada. Abrandamos um pouco, cada um deve ter tido um momento de interiorização, de reflexão e pé no acelerador. No fundo, apesar de todas as nossas vivências, não deixávamos de ser quatro jovens [todos com 20 anos] rumo a um deserto de ideias sobre o que iríamos encontrar pela frente, quer quanto ao percurso, quer em relação ao destino final, as unidades e vida militar.
Viana ficou para trás, vimos a indicação de Catete a (x) kms e depois que Dondo ficava a outros (x) kms. Essas principais localidades ficaram para trás e à nossa frente uma estrada sem fim.

** Viana. Anos 70 **


** Catete. Estação **




O Henrique na condução, o Fernando [irmão] a seu lado e no banco de trás eu e Carlos. Passado o impacto emocional, foi tagarelar até nos cansarmos de tanto falar e rir. É sempre assim no inicio de qualquer saída. Dá-se tudo e depois é o silêncio.
Os quilómetros eram “devorados” em bom ritmo. Ainda estávamos frescos e o carro correspondia. Fomos visualizando um ou outro indício da presença próxima de pequenas povoações, passamos por uma de maior envergadura [mais tarde soubemos que se chamava Quibala]

** Quibala. Anos 70 ****


continuamos até chegarmos a Santa Comba. Do que a esta distância do tempo penso lembrar-me Santa Comba tinha à entrada do lado direito um cemitério, do lado esquerdo umas bombas e um género de restaurante. Obviamente que haviam mais habitações, mas não me pareceu ser um local de grande importância regional. Possivelmente seria mais um ponto estratégico de apoio aos que transitavam pela estrada, mas é evidente que desconhecia a realidade da zona.
Paramos, vimos quantos quilómetros tinham sido percorridos (penso que à volta de 500km), atestou-se o depósito, deu-se uma volta aos pneus, tudo ok e rumamos para o restaurante.
Perguntamos o que podíamos comer, já que para beber tinham vindo umas Nocais e uma Cola para um dos irmãos. Churrasco, disse o que nos atendeu, é o que mais sai e é a especialidade da casa. E foi o que pedimos. Aqui surgiu a primeira surpresa. Disse para sairmos com ele, contornamos o restaurante e deparamos com um terreno onde estavam umas largas dezenas de frangos. Dentro da cerca estava um ou dois empregados negros. O proprietário disse-nos para escolhermos os frangos que queríamos para o churrasco. Como não contávamos com esse pormenor de escolha dissemos que nos era indiferente e que fosse ele a escolher. Não concordou, argumentando que era norma da casa o cliente escolher o frango. Lá escolhemos os frangos (dois), vimos os negros a apontarem para os que pensavam que tínhamos escolhido, o patrão disse que não eram aqueles e foi uma algazarra de cocorocós de frangos a fugirem dos negros e nós já sem sabermos quais os que tínhamos “escolhido”.

** Santa Comba/Igreja **


No inicio achamos alguma piada mas rapidamente pareceu-nos ridículo e degradante aquele cenário. Mandamos um … parem lá isso … e dissemos querer os dois primeiros frangos que apanhassem e não admitimos resposta contrária do proprietário. Retiramo-nos para o restaurante, embora a nossa vontade fosse a de nos irmos embora e comermos noutro lado. Mas estávamos em terreno e zona desconhecidos, pelo que aguardamos pelos ditos churrascos, que por sinal estavam mais que óptimos. Após o café perguntamos se íamos bem para Nova Lisboa e que tempo demoraríamos a chegar. Que faltariam uns 200 kms e talvez fizéssemos em cerca de três horas, pois a dado momento entraríamos na zona de subida para o planalto e naturalmente teríamos que reduzir a velocidade do carro, a fim de não o “forçarmos”. Agradecemos e fizemo-nos à estrada. Seriam talvez umas 3 horas da tarde. Já estávamos a ficar saturados de não chegar.

[ continua ]



Comments:
olá leo boa noite, a tua passagem por terras de Angola está óptima. Cá estarei de novo pra ler o resto.Um abraço edu
 
Olá mano

Depois de lidos todos os temas relativamente à tua ida para a guerra (parece o Solnado), vou começar por dizer-te que se o elefante tem boa memória tu tens memória de... elefante.

:))

Eu nem me lembro onde fui fazer a inspecção, nem como lá cheguei a Nova Lisboa. Sei que fui na camioneta da Eva, no próprio dia da incorporação, ter feito uma paragem no Dondo e Alto-Hama e depois paragem final na EAMA, já a noite ia alta (mas em Angola anoitece cedo).

:)

Tratamento VIP com escolha de frangos e tudo. Agora fazem o mesmo à lagosta, só que lá era o criado que suava, aqui é a lagosta, mas não para qualquer carteira.

Como esse procedimento não era das nossas "frescuras", pois assim não fomos habituados, qualquer frango era bem-vindo e não era necessário aquele espalhafato todo.

600 km era uma aventura para os carros da época, a subida para o Alto-Hama e por vezes com muito nevoeiro à mistura, não era tarefa fácil.

Mas lá foram...
 
Olá Edu,

aparece sempre que queiras pois, como bem sabes, esta porta está sempre aberta a todos quantos nela queiram entrar.

Abraço
 
Olá mano,

O elefante da memória de elefante é capaz de ser um aprendiz a meu lado :))

Em relação ao teu local de inspecção é mais que provavel que tenha sido onde fiz o meu, pois era o "indicado" para esse efeito.

Quanto ao restaurante em Santa Comba os pais, Quim, São e Alfa, também lá pararam quando foram ao juramento de bandeira e verificaram esse tipo de "serviço", não à lista mas sim de contacto visual com o produto.
Por essas e por outras é que muitos "pagaram" o que de mal poucos fizeram.

Ainda bem que confirmas o nevoeiro do Alto-Hama, pois por lá também passaste.

Abração
 
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