domingo, 3 de outubro de 2010

 

Amor Perdido «» [ o Inicio ]


Confesso que pensei bastante se deveria ou não escrever este tema dedicado a recordar alguém que terá sido a que mais me “marcou” emocionalmente naqueles meus jovens mas já adultos anos. Não que tenha qualquer receio de quem no presente o possa ler, nem de nenhum “fantasma” do passado. A esse e a outros níveis sou totalmente desprendido, pois é-me completamente indiferente o juízo de valores que a meu respeito possam tecer. Mas a delicadeza do tema ao fazer-me retornar às memórias desse tempo longínquo compreendido entre 1972 e 1973 poderia “avivar” o que ainda não “morreu”, pois concluo que esse alguém sempre terá ficado bem no meu íntimo, num qualquer recanto do meu ser.
A imagem e a recordação dela tem sido transversal a todos os anos que medeiam o tempo em que a conheci até aos dias de hoje. E questiono-me … Porquê! E este porquê engloba todas as interrogações imaginárias e inimagináveis. É como que um grito que pelas montanhas e vales ecoa, sabendo que nem o eco receberei como resposta.

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** The Righteous Brothers – Unchained Melody **


Ainda recentemente ouvi de minha mana mais nova quando conversava sobre a que hoje vou recordar: ...pois é meu irmão, não há duvida que essa moça ter-te-á marcado para sempre mas tu na altura eras como um beija-flor. Procuravas pousar em todas as flores que pudesses e encontrasses pelo caminho, sorvias o mel e depois “voavas” para outra e agora verificas que muito de ti ficou agarrado a ela. Nem o tempo consegue fazer esquecer nem colar os cacos em que deves andar...
Não rebati aquela reflexão de minha irmã porque este caso não foi como outros anteriores, nem como os que se seguiram. Este foi totalmente e inesperadamente diferente, sublime. Só ela, ao ter entrado no meu mundo da forma que entrou, conseguiu que eu fizesse coisas e criasse situações que nunca antes nem depois jamais terei feito. Inclusive o facto de pela primeira e única vez na minha vida ter-me “sujeitado” a parecer um “atrasado mental” quando tive que a pedir em namoro. Eu, perto de fazer 22 anos, nunca tinha permitido “autorizar-me” a ter esse tipo de procedimento de procurar obter permissão. Eu é que permitia se andavam ou não comigo e nunca outros. Ter que obter o “aval” não fazia parte do meu dicionário comportamental. Aliás já tinha dito mais que muitas vezes que nunca andaria com alguém cujo passo seguinte fosse o de “formalizar” esse “andar” e até gozava com os amigos que se “sujeitavam” a esse, para mim, constrangimento. Mas ela foi particularmente em tudo “especial” desde que pela primeira vez a vi, passando por esse “embaraçoso” momento.
Até no final que não foi fim, nem um até já, nem um adeus, nem um talvez um dia, ela conseguiu ser diferente. Ainda hoje permanece esse misterioso mistério, esse interrogar, essa busca em torno dos muitos Porquês de ter-se de um momento para o outro volatilizado, desaparecido, esfumado, como se nunca tivesse existido, como se tudo tivesse sido por mim imaginado em estado de coma febril prolongado. Razão pela qual refiro que a reflexão de minha mana neste caso bem particular da minha vida não tinha cabimento, pois em nada de nada foi como os outros. E é esta que foi, e ainda é, a mais desconcertante história de amor que um dia me aconteceu que quero partilhar através deste meu Reviver.
Porque eu mereço, porque ela merece, porque ambos merecemos. Sei que tudo são recordações, mas penso que as ilusões também nos ajudam a viver, pois recordar é viver e eu, neste recordar, sei que a quis como a nenhuma outra jamais terei querido.


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Desde Março de 1972 que estava em Zau-Évua, um ponto no imenso mapa de Angola onde apenas se situava a unidade militar. Um aquartelamento preparado para um batalhão (cerca de 550 militares) estava ocupado por uma companhia (uns 150 militares). Era uma área bastante dimensionada para que a vigilância e patrulhamento nocturnos, e mesmo diurnos, se pudesse fazer de forma eficaz. Pensávamos estar a salvo por estarmos protegidos pelo arame farpado, como se num campo de concentração estivéssemos, mas se o “IN” quisesse entrava por ali à vontade e pegava-nos praticamente com as “calças nas mãos”. Obviamente que não seria bem assim, mas …

** panorâmica de Zau-Évua **


Ainda hoje eu, e por certo muitos dos que lá estiveram, interrogamo-nos do porquê da existência daquele aquartelamento naquele deserto. Zau-Évua era um lugar insuportável devido ao calor e humidade, um lugar inóspito, vulnerável a ataques e de isolamento total. Os únicos humanos éramos no momento nós, a CCAÇ 105/72, já que outras companhias e batalhões tinham lá estado antes e depois. Em redor da zona militarizada a vegetação era a mais baixa possível, pois procurávamos manter a zona sempre capinada, pelos motivos mais que óbvios. Como companhia não humana tínhamos bastante caça, com muitas pacaças, burros do mato e corsas. Relativamente “perto” (em África nada é perto) passava o Rio M’Pozo onde por vezes se praticava a pesca à “granada” a fim de termos uma dieta diferente da quase sempre igual (carne e enlatados). Também aproveitávamos para darmos uns bons mergulhos e braçadas, sempre com protecção, não fosse o diabo tecê-las.

** Mendes, condutor, numa boa banhoca **


Mas sobre Zau-Évua e o que se pode designar pelo seu sindroma prometo escrever alguns temas com estórias bem interessantes. Tendo este “oásis” como paisagem só tinha uma alternativa que era a de “desenfiar-me” para Luanda sempre que pudesse. Posso agora dizer que dos 12/13 meses de comissão naquele degredo terei andado na totalidade uns 3 meses “desenfiado”. Tinha bons camaradas, o comandante era capitão miliciano e isso fazia a diferença no comportamento e relacionamento humano.

** o repouso do "guerreiro" **

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Luanda. Setembro do ano de 1972. Estava de novo e mais uma vez “desenfiado” através da coluna do M.V.L. (Movimento de Viaturas Logísticas). Ia estar uns bons dias em Luanda pois o próximo M.V.L. só sairia no Sábado da semana seguinte. Durante esse tempo os meus companheiros em Zau-Évua “aguentariam” a minha ausência. Praticamente éramos sempre dois dos nossos (transmissões) a “desaparecer” e mais alguns do restante da companhia. Por vezes chegavam a estar mais de dez “desenfiados”. O importante era não nos metermos em problemas ou confusões que metessem policia, pois aí estaríamos “tramados” e a rigorosa disciplina militar far-se-ia cumprir. Além disso também não se podia comprometer os camaradas que davam "cobertura" aos ausentes. Todos tínhamos que andar com bastante cuidado e não dar muito nas vistas, mesmo durante o trajecto do M.V.L. Chegado a casa a surpresa do costume, neste caso somente de minha mãe, já que meu pai e irmãos estavam a trabalhar. Um bom banho retemperador (sempre tinham sido cerca de 500 kms e umas 40 horas de viagem entre picadas de pó e estradas de asfalto) e eis-me pronto para uns dias de "férias".
Sendo fim de tarde fiquei a aguardar que meus irmãos e meu pai chegassem dos trabalhos e vou até ao quintal para meter-me com o Nilo, o nosso cão rafeiro. Cumprimento os vizinhos e estou há algum tempo com eles na cavaqueira quando por acaso olho para o 1º andar e vejo um rosto desconhecido e uns longos cabelos caídos sobre os ombros, pois quem era encontrava-se debruçado no parapeito da varanda.



A visão foi fugaz já que ao meu olhar meteu-se para dentro e deixei de a ver. Continuei na conversação mas senti algo de estranho dentro de mim. Tanto que quando meus irmãos chegaram e depois dos abraços e da satisfação de estarmos novamente juntos, puxei minha irmã para o lado e perguntei-lhe quem era e como se chamava a moça que eu tinha visto na varanda da D. Lurdes. Ela riu-se e disse mais ou menos isto …""acabas de chegar e já estás a querer pousar! É uma sobrinha da D. Lurdes, chama-se (.....) e está cá há pouco tempo, veio do interior. Mas não tentes nada pois o Alfa (nosso irmão) parece que anda interessado nela e tu daqui a uns dias já cá não estás. E também é bastante nova para ti""…



Bom, se era assim como minha irmã dizia tudo bem. Nem sequer perguntei ao mano Alfa coisa alguma, pois o que pensei foi após o jantar sair para a vida da Luanda nocturna.

[ continua ]



Comments:
Olá Mano

Se há "Palavras que nos beijam" (Alexendre O'neill) também há rostos que nos marcam.

Foi assim a tua paixão por esta moça que tantos anos passados ainda continua este rosto a fazer parte das tuas memórias.

O que se fazia na época, para se voltar a ver o rosto de quem se gosta.

:)

Mas a vida é feits disto mesmo, de encontros e desencontos, e nunca se sabe se um dia a voltarás a ver, não para revolver o passado, mas sim para o rever no presente.

Abraços
 
Pois mano, é como dizes.
E sei que tu foste sabendo que sim no decorrer destes anos e de conversas que tivemos.

Penso que estaria pronto para ser um leão domado, mas a feiticeira não quis ou não pode ou não quiseram que ela quisesse. Essa é a grande incógnita que há-de perdurar, assim como o nome e o rosto dela.

Pode ser que um dia talvez venha a saber, se ela de mim se lembrar, se eu a encontrar.

Abração
 
Leo,a narrativa merece respeito, formidavel, gosto e partilho os teus momentos. Abraço Edu
 
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